terça-feira, 15 de setembro de 2009

adorno para variáveis e constantes

Jonas e Vanessa se conheciam desde os sete anos dela, desde os oito anos dele. Foram amigos de escola por toda a infância e até parte de sua adolescência, quando com quatorze anos Jonas se mudou.

(e entre a infância e a adolescência, foram o primeiro beijo um do outro).

Quando Jonas saiu da cidade, tinha os cabelos loiros na altura dos ombros, mais compridos que os de Vanessa - que iam até o queixo -, e usava uma pulseira trançada de cordas vermelhas no pulso esquerdo.

Vanessa era uma menina de cabelos castanhos e virgens, óculos de armação grossa e branca, e tornozeleira de prata na perna direita. Chorou quando Jonas foi embora, e o fez prometer que escreveria e se falariam sempre, pra nunca perderem o contato um com o outro.

Jonas voltou aos vinte anos, tão alto!, os cabelos na altura dos ombros, a pulseira trançada de cordas vermelhas ainda no pulso esquerdo, mas não mais as bermudas caindo da cintura, não mais virgem, não mais a voz instável do menino na puberdade, e sim calças jeans e sociais, uma namorada de oito meses, e a voz agora de homem.

Da juventude que Vanessa não conheceu, trouxe um furo na orelha direita, histórias com motocicletas, e uma tatuagem no antebraço de um trecho d'Os Miseráveis.

Contabilizando, foram seis anos fora da vida de Vanessa, cinco anos de uma promessa quebrada e sem dar notícias.

Agora, abrindo a porta do quarto dela, encontrando nomes de bandas que não conhecia, fotos de gente que não conhecia, e cheiros de perfumes que não conhecia, sentiu saudades da Vanessa que deixou, e lamentou não ter voltado mais cedo - lamentou o fato de sequer ter uma boa desculpa para não ter voltado mais cedo.

Quando Vanessa parou junto à porta do quarto e encontrou Jonas jogado em sua cama, dormindo como fazia anos atrás, teve vontade de gritar, de bater, de chorar, de xingar, de pular em cima dele e de abraçá-lo. Vanessa só não fez nada disso porque não teve coragem de tocar nele depois de tanto tanto tempo. Ficou parada no meio do quarto, reparando os cabelos, os cílios longos, as pequenas sardas no nariz, a orelha furada e a tatuagem. Teve vontade de perguntar onde fez tudo aquilo, teve vontade de perguntar das cicatrizes que notou em seu braço, teve vontade de saber como e por que motivo mudou tanto - ainda que (aparentemente) não tivesse mudado tanto quanto ela mesma.

A Vanessa de dezenove anos ainda tinha os cabelos na altura do queixo, mas eles já não eram virgens, e sim um meio-a-meio de verde e roxo. Os olhos cansados ficavam atrás de armações finas e azuis, e as marcas nos pulsos ossudos entregavam que vivera dias em que queria morrer. Vanessa não se orgulhava disso. Vanessa não se orgulhava de muita coisa, na verdade, a começar por seu corpo magro demais e pela aparência doentia que parecia vir moldando há tempos. Vanessa também não se orgulhava de sua vida acadêmica que parecia fadada ao fracasso, ou de sua vida amorosa, que se limitava a sexo com uns carinhas aleatórios quando tinha vontade. Vanessa não se orgulhava da vida que levava, e talvez por isso ainda não tivesse acordado Jonas - sempre teve medo de decepcioná-lo, e acreditava realmente que o decepcionaria, se ele a encontrasse naquele estado.

Da juventude que Jonas não conheceu, Vanessa conhecia uma lista de terapeutas e psicólogos e psicanalistas, tinha mais de 20GB de música no disco rígido, e possuía um histórico extenso de corações partidos. Da juventade que Jonas conheceu, talvez restasse o riso; da juventude que Jonas conheceu, certamente restava a tornozeleira de prata na perna direita.

Quando Jonas acordou, Vanessa estava sentada ao seu lado, parada, observando-o. Não sorriram ao se encarar. Não se abraçaram, nem trocaram uma palavra sequer - talvez estivessem se reconhecendo; talvez precisassem se reconhecer, antes de qualquer coisa.

O primeiro gesto veio de Vanessa, a primeira frase veio de Jonas. Um abraço e me desculpe. Foi assim que começou.


- Você tá diferente.
- Você não mudou nada.


- É, eu mudei bastante, sim. Mas você tá triste.
- Eu quis morrer - riso debochado - Isso tende a deixar as pessoas diferentes.


- Eu ia escrever.
- Eu não me importo.
- Eu queria, eu realmente queria. Pensava em você todo dia, e queria ligar, e ficava de aparecer...
- É sério, esquece isso.
- Você me fez prometer.
- Eu não ligo. Já passou. Já esqueci, olha - estalou os dedos.


- O que foi que aconteceu?
- Quis morrer, já disse. Hoje não quero mais.
- frio na espinha - Mesmo?
- Não quero.


- Você pintou o cabelo.
- E você furou a orelha.
- Seus cabelos continuam na altura do queixo.
- Seus cabelos continua semi-compridos.
- os dois sorriem -


- Já faz tempo.
- Sim, faz algum.
- E você não liga?
- Aprendi a não ligar - deu de ombros - Mas não assim. Não sei, eu sabia que você acabaria voltando.
- Suponho que seja algo bom.
- É, é sim.


- Eu tô namorando.
- Eu não.
- Há oito meses.
- Parabéns.
- Ela é legal.
- Não conheço muitos caras legais. Fico feliz por você.


- Você tá seca - suspiro.
- Não, só distante.
- Sei lá, isso me incomoda. Queria que você estivesse feliz.
- Não se preocupe, eu vou ficar.
- Eu sei que vai, mas queria você feliz agora. Queria você feliz na época em que não tava por perto.
- Ah, isso não vai mudar...


- Senti sua falta, sabe?
- suspiro - É, eu sei.
- Você não me desculpou.
- Eu não preciso, não foi sua culpa. Olha, olha pra mim - mão dela no rosto dele - Amo você, sabe? Pensei em você o tempo todo. A primeira vez e o primeiro beijo. O primeiro beijo foi melhor, a primeira vez não foi com você, paciência. Eu te amo, e sei lá. A gente é amigo. Não tem muito mistério, sabe? Eu só tô feliz porque você tá aqui.


- Eu também amo você.


- Você precisa me mostrar algumas bandas e contar algumas histórias.
- risos quase como os de antigamente - Ah, eu vou. Mas você precisa me contar da sua namorada.
- risos de sempre - Ah, eu vou.


- Você ainda usa a tornozeleira que eu te dei.
- E você a pulseira que eu te dei.
- os dois sorriem -


- Vou ficar vinte dias. Dá tempo de te levar pra passear na moto que consegui.
- Você conseguiu uma moto - risos.
- Sim. E a gente pode ver o quão rápido ela vai - risos.
- Vai ser bom ter você por perto.
- Vai ser bom estar por perto.


- Até 'manhã.
- Até 'manhã.


O último gesto veio de Jonas, a última frase veio de Vanessa. Um longo abraço e um obrigada por tudo.

Foi assim que terminou.

2 comentários:

Pam Lima disse...

Rolou algo de identificação.

julya aka nika disse...

te falar que ao invés de loiro, imaginei ele ruivo? tipo um Gui Weasley?! HAHAHA XD

beijinho, linda :*