terça-feira, 29 de setembro de 2009

utilidade pública

É só uma nota, algo pra lembrar que não é preciso fazer da vida uma tragédia.

domingo, 27 de setembro de 2009

take your chances, turn around and go

Estava pensando no que a Diana disse. Acho sinceramente que ela tem razão, assim como acho que muita gente tem razão também. Não é o fim do mundo, eu sei disso. O que eu não sei é se as pessoas entendem a situação, o quanto e como tudo isso foi importante pra mim.

Eu não preciso que entendam a minha dor ou o meu sofrimento - não era esse entendimento que eu estava buscando, até porque eu não gostaria de dividir essa sensação com as outras pessoas. O que eu queria que entendessem é outra coisa, mais simples, talvez: que ele foi muito importante pra mim; tão importante que eu realmente não sabia o que ou como ia ser depois dele, porque eu estava com medo de ser depois dele, porque eu já tinha me esquecido como era ser depois dele, por causa de uma série de outros fatores que não cabem aqui.

Às vezes penso que, talvez, se eu estivesse com ele, não sentisse essa tal necessidade, a de que os outros entendessem a importância dele na minha vida. Penso isso porque, no fim das contas, eu precisava é de um conforto. Não sei, pode até parecer errado, mas eu precisava saber que outras pessoas entenderiam o que aparentemente ele não entendeu - ou entendeu e teve medo, não sei: que eu o amava. Que eu amava tudo nele, até o que me irritava e pelo que a gente discutia, às vezes. Que eu o amo mesmo agora, sem a gente se falar, com a gente se cumprimentando rápido nos corredores, só com um "oi" ou "bom dia".

E não tem raiva, não tem rancor, tem só um espaço muito grande, algo que eu não posso mais tocar, um vazio estranho, um prédio de dezesseis andares completamente abandonado. Não sei. Ele foi a primeira pessoa que disse que me amava desse jeito, a primeira pessoa que eu disse amava e tentei demonstrar e me entreguei... desse jeito. Ninguém precisa entender minha dor, desde que entendam que é difícil, agora, pensar que vai passar. Vamos lá, quem aqui suportaria ouvir isso se, naquele momento, acreditasse que aquela pessoa seria/é a única na tua vida? Esse é o ponto.

Não se trata de passar, mas sim de ficar bem depois de tudo - e isso eu sei que vou ficar.


No mais, agradecimentos sinceros a quem se preocupou :*


terça-feira, 22 de setembro de 2009

grafite

Foi por acaso. Conheci Marina nas Lojas Americanas do Tijuca, enquanto com dedos leves afanava uns doces, e os fazia escorregar para o meu bolso, assim, quase que acidentalmente. Marina me flagrou com o twix já próximo da mochila, quando avisou que não contaria pra ninguém, caso eu dividisse com ela. Ela sorriu logo em seguida, e logo em seguida eu quis ser sua amiga.

Marina gostava de uns rocks antigos, tinha um piercing que atravessava a orelha, usava uns lápis de olho muito fortes, e estava sempre com uns all star de cano longo. Foi naquele dia, reparando seu tênis desbotado, que decidi escrever all stars em minhas histórias, homenageando Marina sempre que possível. Lembro dela ter dito, naquela ocasião, que não tinha planos de fazer faculdade, embora gostasse muito de exatas e estudasse na escola técnica de química. Dizia que achava faculdade uma perda tempo, embora nunca tenha mencionado o que faria com seu tempo livre.

Marina tinha a pele cor de caramelo e uns olhos pequenos de cor castanha. Quando não estava de all star, estava de coturnos pretos, umas calças largas, ou saias curtas, e blusas justas. Não raro a via de meia calça. Às vezes usava uns spikes nos pulsos, umas correntinhas de prata no pescoço, e uns brincos sempre muito pequenos, de pedrinhas brilhantes, ou então pequenas argolas. Fazia uns penteados diferentes, quase sempre, e nunca se cansava de falar, ou rir, e queria aprender a andar de skate com os meninos.

Marina tinha manias, Marina tinha vontades, Marina tinha histórias. Marina vivia como se fossem mil pessoas sob uma pele, e nunca soube de onde tirou tanta energia e paciência pra ser tanta gente em uma só. Marina desenhava, tirava um som de uma guitarra, apostava corridas de bicicleta, e pixava muros de casas de burgueses feito ela. De fato, não era tão incomum encontrar seu nome marcado nas paredes de prédios, escolas, casas, e demais estabelecimentos, da Tijuca, Grajaú e adjacências, sempre acompanhado da caricatura de uma menina abraçada aos joelhos com um sorriso meio jogado, meio boêmio. Tudo obra de Marina, a menina que conheci enquanto afanava uns doces das Lojas Americanas do Tijuca.

No dia em que a conheci, não fazia a menor idéia do que ela se tornaria, ou do quanto ela se tornaria na minha vida. Lembro de querer me tornar sua amiga. E me tornei, não muito tempo depois. Lembro de ter sido a primeira garota pela qual tive alguma atração, ainda que nunca tenhamos ido além da relação fraterna. E talvez por isso tudo, talvez por isso tudo tenha me doído tanto ver de novo uma pixação de Marina, depois de quatro anos, depois que Marina morreu. E talvez nem fosse dela, talvez nem fosse dela de verdade, mas... Foi por acaso que eu vi.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

chapter one


Descruzou as pernas, descruzou os braços, massageou os pulsos, amarrou os cadarços, sentiu cheiro de campo, sentiu vento no rosto, sentiu os olhos arderem, sentiu chuva molhando o corpo e cantou alto, cantou sozinho na rua, cantou tão alto tão mais alto tão quase berrando, que pôs todo o ar pra fora dos pulmões em versos, porque cantava pra expurgar o fim, cantava pra extenuar o fim, cantava para exorcizar o fim, todo o fim entranhado em sua história. Cantava, os braços abertos na tempestade, para experimentar o começo.

And if the world should fall apart, hold on to what you know.
Take your chances turn around and go.


domingo, 20 de setembro de 2009

playing card

Resolvemos jogar baralho, essa noite. Nós quatro. E ele me olhava como se me pedisse desculpas, mas eu não sabia se era pelo jogo ou se por todo o resto - tive vontade de dizer que ele não precisava daquilo, que se fosse pelo resto então eu já entendia, mas daí notei que ela me olhava com tanta raiva contida, e me perguntei se o olhar dele também não teria a ver com ela.

O parceiro de jogo dela era meu amigo, mas era novo nisso. A parceira de jogo dele era sua amiga, era eu, e eu já estava cansada de vê-lo entregando tudo pelos outros dois... Então pensei em desistir, em levantar da mesa, ir embora, e deixá-los pra trás. Mas a verdade é que eu não podia simplesmente sair, não quando - apesar do olhar dele, e da sensação de que ele acabaria fazendo merda - eu me via com uma mão tão boa pra continuar jogando... Quem sabe a gente não levaria aquela? Mas daí veio o soco. Podia não ser só por ela, podia não ser pelo olhar de raiva - que ele também percebeu -, podia ser por outra coisa.

Para o meu desespero, podia ser porque ele queria perder. E se ele realmente quisesse perder, o que me sobrava, então? Olhei para o amigo, a dupla dela no jogo, e ele parecia preocupado. Ele sussurou um pedido de desculpas e baixou a mão. Ela baixou a mão também. Olhei pra ele meio que sem vontade de olhar, e não esperei pra mostrar meu jogo depois dele. Mostrei antes. E antes, também, de ouvir a confirmação do resultado, saí da mesa sem olhar pra trás.

Ele entregou o jogo, e não foi só por por causa dela.

so this is strange


Our sidestepping has come to be
A brilliant dance
Where nobody leads at all
Where nobody leads at all

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

the painful realization that all has gone wrong

As pessoas dizem que vai passar. As pessoas dizem que eu sou jovem demais pra isso, pra sofrer por e de amor, ou então pra saber se isso é amor de verdade. As pessoas são todas umas retardadas hipócritas que deviam ir tomar no cu pra ver se a dor passaria na hora em que pensassem "vai passar".

E, sei lá, ainda tem o cansaço, a sensação de que eu podia ter mudado muita coisa, e que se eu tivesse mudado essa muita coisa, ao invés de estar na merda que eu tô agora, eu estaria feliz. Queria só que as pessoas entendessem isso, que eu tenho consciência da minha felicidade na época, e que tenho consciência da minha infelicidade agora. Eu só queria que as pessoas entendessem o que eu perdi, que não foi um ficantezinho de merda, mas sim o cara que fazia todas as coisas parecerem se encaixar. É bizarro. Tem a ver com ter noção da perda. Acho que a maioria das pessoas não têm isso, ou então não têm noção do quanto sentem pelas outras. E eu só queria que elas entendessem, mas elas não vão.

Houve um momento em que eu cogitei saltar. Acho que não durou mais que uma fração de segundo, mas foi algo como um lampejo por trás dos olhos em que eu me vi caindo - talvez fosse apenas a sensação de estar me jogando, enquanto discursava que nunca, nunca mais...

É recente, então não raro me pego pensando nele, nisso, na gente. Lembrando coisas, todo tipo de coisas, e inventando histórias que poderiam ter sido. E fico me perguntando, às vezes, o que é vou fazer a partir de agora - sim, ainda estou atordoada e perdida. Eu vivi dezenove anos sem ele, mas depois dele ter entrado na minha vida, me dá até pânico pensar em continuar vivendo sem tê-lo por perto. Mas as pessoas não parecem entender...

rota 711

Daí, o que a gente não sabe a gente acaba inventando - ela diz, com aquele jeito de quem sempre tem certeza de tudo o que está sendo dito.

Eu olho pra ela e fico me perguntando, de onde foi que ela veio?, por que foi que ela veio?, e pra onde é que ela vai?, mas quanto mais ela discursa com esse ar de dona da razão, mais eu fico sem saber sobre as coisas que eu gostaria de saber a respeito dela - e é aí que o que ela diz lá no início faz sentido: quanto mais eu não sei nada, mais eu invento.

E é engraçado, ela continua, como a gente sempre dá um jeito de tornar tudo tão plausível, como a gente sempre dá um jeito de tornar tudo tão de verdade quando tudo é tão faz-de-conta. Sabe, eu acho que todos nós nascemos grandes mentirosos...

Eu suspiro e aceito. Porque, afinal, que mais eu posso fazer a não ser aceitar que ela está aqui bem na minha frente, e que eu não faço idéia do lugar pra qual ela vai depois? Faz apenas trinta e sete minutos que estamos conversando. Faz apenas trinta e sete minutos que nos conhecemos, e, para minha surpresa, me percebo apaixonado por ela.

Merda!

De onde foi que ela veio?
Pra onde é que ela vai me levar?

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

o nono andar da uerj

Dizem que foi suicídio.
Bem, talvez tenha sido suicídio.
Talvez tenha sido suicídio.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

adorno para variáveis e constantes

Jonas e Vanessa se conheciam desde os sete anos dela, desde os oito anos dele. Foram amigos de escola por toda a infância e até parte de sua adolescência, quando com quatorze anos Jonas se mudou.

(e entre a infância e a adolescência, foram o primeiro beijo um do outro).

Quando Jonas saiu da cidade, tinha os cabelos loiros na altura dos ombros, mais compridos que os de Vanessa - que iam até o queixo -, e usava uma pulseira trançada de cordas vermelhas no pulso esquerdo.

Vanessa era uma menina de cabelos castanhos e virgens, óculos de armação grossa e branca, e tornozeleira de prata na perna direita. Chorou quando Jonas foi embora, e o fez prometer que escreveria e se falariam sempre, pra nunca perderem o contato um com o outro.

Jonas voltou aos vinte anos, tão alto!, os cabelos na altura dos ombros, a pulseira trançada de cordas vermelhas ainda no pulso esquerdo, mas não mais as bermudas caindo da cintura, não mais virgem, não mais a voz instável do menino na puberdade, e sim calças jeans e sociais, uma namorada de oito meses, e a voz agora de homem.

Da juventude que Vanessa não conheceu, trouxe um furo na orelha direita, histórias com motocicletas, e uma tatuagem no antebraço de um trecho d'Os Miseráveis.

Contabilizando, foram seis anos fora da vida de Vanessa, cinco anos de uma promessa quebrada e sem dar notícias.

Agora, abrindo a porta do quarto dela, encontrando nomes de bandas que não conhecia, fotos de gente que não conhecia, e cheiros de perfumes que não conhecia, sentiu saudades da Vanessa que deixou, e lamentou não ter voltado mais cedo - lamentou o fato de sequer ter uma boa desculpa para não ter voltado mais cedo.

Quando Vanessa parou junto à porta do quarto e encontrou Jonas jogado em sua cama, dormindo como fazia anos atrás, teve vontade de gritar, de bater, de chorar, de xingar, de pular em cima dele e de abraçá-lo. Vanessa só não fez nada disso porque não teve coragem de tocar nele depois de tanto tanto tempo. Ficou parada no meio do quarto, reparando os cabelos, os cílios longos, as pequenas sardas no nariz, a orelha furada e a tatuagem. Teve vontade de perguntar onde fez tudo aquilo, teve vontade de perguntar das cicatrizes que notou em seu braço, teve vontade de saber como e por que motivo mudou tanto - ainda que (aparentemente) não tivesse mudado tanto quanto ela mesma.

A Vanessa de dezenove anos ainda tinha os cabelos na altura do queixo, mas eles já não eram virgens, e sim um meio-a-meio de verde e roxo. Os olhos cansados ficavam atrás de armações finas e azuis, e as marcas nos pulsos ossudos entregavam que vivera dias em que queria morrer. Vanessa não se orgulhava disso. Vanessa não se orgulhava de muita coisa, na verdade, a começar por seu corpo magro demais e pela aparência doentia que parecia vir moldando há tempos. Vanessa também não se orgulhava de sua vida acadêmica que parecia fadada ao fracasso, ou de sua vida amorosa, que se limitava a sexo com uns carinhas aleatórios quando tinha vontade. Vanessa não se orgulhava da vida que levava, e talvez por isso ainda não tivesse acordado Jonas - sempre teve medo de decepcioná-lo, e acreditava realmente que o decepcionaria, se ele a encontrasse naquele estado.

Da juventude que Jonas não conheceu, Vanessa conhecia uma lista de terapeutas e psicólogos e psicanalistas, tinha mais de 20GB de música no disco rígido, e possuía um histórico extenso de corações partidos. Da juventade que Jonas conheceu, talvez restasse o riso; da juventude que Jonas conheceu, certamente restava a tornozeleira de prata na perna direita.

Quando Jonas acordou, Vanessa estava sentada ao seu lado, parada, observando-o. Não sorriram ao se encarar. Não se abraçaram, nem trocaram uma palavra sequer - talvez estivessem se reconhecendo; talvez precisassem se reconhecer, antes de qualquer coisa.

O primeiro gesto veio de Vanessa, a primeira frase veio de Jonas. Um abraço e me desculpe. Foi assim que começou.


- Você tá diferente.
- Você não mudou nada.


- É, eu mudei bastante, sim. Mas você tá triste.
- Eu quis morrer - riso debochado - Isso tende a deixar as pessoas diferentes.


- Eu ia escrever.
- Eu não me importo.
- Eu queria, eu realmente queria. Pensava em você todo dia, e queria ligar, e ficava de aparecer...
- É sério, esquece isso.
- Você me fez prometer.
- Eu não ligo. Já passou. Já esqueci, olha - estalou os dedos.


- O que foi que aconteceu?
- Quis morrer, já disse. Hoje não quero mais.
- frio na espinha - Mesmo?
- Não quero.


- Você pintou o cabelo.
- E você furou a orelha.
- Seus cabelos continuam na altura do queixo.
- Seus cabelos continua semi-compridos.
- os dois sorriem -


- Já faz tempo.
- Sim, faz algum.
- E você não liga?
- Aprendi a não ligar - deu de ombros - Mas não assim. Não sei, eu sabia que você acabaria voltando.
- Suponho que seja algo bom.
- É, é sim.


- Eu tô namorando.
- Eu não.
- Há oito meses.
- Parabéns.
- Ela é legal.
- Não conheço muitos caras legais. Fico feliz por você.


- Você tá seca - suspiro.
- Não, só distante.
- Sei lá, isso me incomoda. Queria que você estivesse feliz.
- Não se preocupe, eu vou ficar.
- Eu sei que vai, mas queria você feliz agora. Queria você feliz na época em que não tava por perto.
- Ah, isso não vai mudar...


- Senti sua falta, sabe?
- suspiro - É, eu sei.
- Você não me desculpou.
- Eu não preciso, não foi sua culpa. Olha, olha pra mim - mão dela no rosto dele - Amo você, sabe? Pensei em você o tempo todo. A primeira vez e o primeiro beijo. O primeiro beijo foi melhor, a primeira vez não foi com você, paciência. Eu te amo, e sei lá. A gente é amigo. Não tem muito mistério, sabe? Eu só tô feliz porque você tá aqui.


- Eu também amo você.


- Você precisa me mostrar algumas bandas e contar algumas histórias.
- risos quase como os de antigamente - Ah, eu vou. Mas você precisa me contar da sua namorada.
- risos de sempre - Ah, eu vou.


- Você ainda usa a tornozeleira que eu te dei.
- E você a pulseira que eu te dei.
- os dois sorriem -


- Vou ficar vinte dias. Dá tempo de te levar pra passear na moto que consegui.
- Você conseguiu uma moto - risos.
- Sim. E a gente pode ver o quão rápido ela vai - risos.
- Vai ser bom ter você por perto.
- Vai ser bom estar por perto.


- Até 'manhã.
- Até 'manhã.


O último gesto veio de Jonas, a última frase veio de Vanessa. Um longo abraço e um obrigada por tudo.

Foi assim que terminou.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

aquelas duas

Clarice e Alice não eram amigas. Clarice vivia de all star e jeans surrado, Alice vivia de vestidos amarelos e sandálias baixas. Clarice gostava de pintar as unhas de cores que Alice abominava - como coral, por exemplo -, e Alice não conseguia manter as unhas grandes, de qualquer forma. Clarice gostava de rock e Alice ouvia MPB. Clarice e Alice nem se conheciam, mas tinham uma amiga em comum. A amiga roía as unhas de vez em quando, ouvia MPB de vez em quando, usava vestidos junto com all star, e cantava rock porque achava mais fácil cantar em inglês. Em relação a Clarice e Alice, acreditava que de próximo ou parecido tinham somente o nome, com esse final sem som de final, "ice" "ice" "ice".

Por causa da amiga, Clarice sabia um pouco sobre a vida de Alice. Sabia que Alice havia estudado em colégio católico e que gostava de jogar futebol; sabia que Alice não tirava boas notas em História, e que era a irmã do meio - o mais novo se chamava Rodrigo, e o mais velho se chamava Eric. Alice também sabia um pouco da vida de Clarice. Sabia que Clarice gostava de desenhar e que fizera um curso por dois anos, até desistir dele pra começar o violão e depois entrar numa banda; sabia que Clarice vivia com a mãe e que os pais dela eram divorciados, sabia que Clarice era filha única, e que tinha um cocker spaniel inglês todo preto chamado Sirius.

Clarice e Alice se conheceram por causa de um show de Clarice, que convidou a amiga em comum e disse que esta poderia chamar quem quisesse. A banda de Clarice tocou Read My Mind, The Killers, que Alice reconheceu por já ter ouvido no MP4 da amiga, e que a deixou feliz por finalmente saber cantar o refrão de alguma música. Clarice e Alice foram apresentadas pela Amiga em comum, que disse que elas iam acabar gostando uma da outra. Alice cumprimentou Clarice timidamente, Clarice tomou Alice pela mão pra apresentá-la ao resto da banda e aos amigos.

Depois do show, Clarice e Alice se esbarraram no Orkut, álbum de fotos da amiga, trocaram recados, e-mails, mensagens instantâneas, telefones, SMSs, um pouco de experiência, piadas, livros, músicas, planos, alguns corações partidos, e demonstrações de afeto. Clarice e Alice agora eram amigas, e junto da Amiga em comum andavam de bicicleta, iam aos show de Clarice, iam aos campeonatos de Alice, ficavam sentadas no Arpoador, e faziam planos de que deveriam alugar um apê qualquer pra morar juntas assim que desse. No fim do dia, a Amiga passou a acreditar que talvez Clarice e Alice tivessem muito mais coisas próximas ou parecidas do que somente o nome.

Clarice e Alice sumiram por alguns meses. A Amiga fez outros amigos e passou a andar com eles, a sair com eles, a beber com eles, e a fumar com eles. A Amiga pensava, de vez em quando, no que teria acontecido às outras duas, mas nunca havia tempo o suficiente para ligar, perguntar como iam, e a faculdade os planos os trabalhos e tudo mais?, até o dia em que subindo a Voluntários da Pátria encontrou Clarice e Alice, mãos dadas, dedos entrelaçados, trocando um rápido beijo antes de continuarem a conversar. A Amiga sorriu, feliz pelas duas, e as cumprimentou ao passar por ambas. Nos dez minutos em que se falaram, a Amiga reparou que Clarice usava vestido, e que Alice estava deixando as unhas crescerem. Não ficou surpresa ao saber que Clarice deixou a banda, mas ficou admirada ao ouvir que Alice desistiu de Engenharia para fazer Astronomia - nem sabia que Alice gostava disso, sempre pensou que essa fosse Clarice, mas àquela altura já não tinha tanta certeza. Combinaram de se encontrar e de sentar pra uma conversa mais longa, colocar o assunto em dia e descobrir como elas acabaram ficando juntas, risos risos risos. Se despediram rapidamente, beijo na bochecha direita, beijo na bochecha esquerda, repete de novo com a outra, e todas seguindo suas vidas. Olhou para trás e ainda teve tempo de ver as duas, antes que dobrassem a esquina. Clarice e Alice amigas - mais que amigas, até -, acima de tudo felizes.


Título emprestado do conto "Aqueles dois", do Caio - porque
assim que terminei, vi que tinha muito deles três.


tédio

Ficou brincando com o canudo e o refrigerante, acenou a cabeça quando ouviu uma pergunta vaga, e ao ver a empolgação inabalável da amiga, ficou satisfeita em constatar que seus amigos já estavam tão acostumados ao seu silêncio, que já não se importavam em perguntar ou não o que estava acontecendo ou como andava sua vida. Ficou satisfeita porque lhe era cômodo quando pensava demais - ela sempre pensava demais -, mas não queria ou não conseguia falar sobre tudo o que pensava.

Sorriu por causa de uma piada que não ouviu e pela qual não demonstrava o menor interesse. Pontuou a narrativa da outra com alguns comentários que poderia ter feito em qualquer outra história, para logo em seguida afundar no que Caio dissera na noite anterior sobre linhas paralelas se encontrarem no infinito - e sobre o infinito ser nunca ou sempre.

Pensou que se Caio estivesse ali, talvez perguntasse o motivo do canudo e do refrigerante parecerem tão divertidos a ponto de tirá-la da realidade. Pensou que talvez gostasse demais de Caio e que era ele quem deveria estar ali, e não Alice - e gostava tanto de Alice! Pensou que Caio deveria estar ocupado demais para atender o telefone agora - e de qualquer forma, o que ela diria a ele? "preciso de você aqui" "pra quê?" "pra ter você por perto". O que Caio pensaria dela no fim da noite? Talvez Caio nem se importasse, talvez Caio não tivesse nada pra fazer, ainda que fosse sábado, talvez Caio estivesse esperando um telefonema dela, que não vinha.

(se perguntou, de repente, no que Caio acreditava - se o infinito era sempre ou nunca -, e ficou com vontade de perguntar a ele).

Levantou os olhos em direção a Alice, baixou os olhos logo depois - não tinha vontade de encarar ninguém. Tinha vontade só de ficar brincando com o canudo e o refrigerante. E, agora, de ligar pra Caio.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

síntese II

O post anterior é sobre uma garota que levou um fora e ficou chateada. Pronto, poupei todo mundo de três-horas-quarenta-e-oito-minutos-e-vinte-e-sete-segundos de leitura. Agora, sigam com suas vidas que eu vou seguir com a minha com um potinho de cola:





quinta-feira, 10 de setembro de 2009

floating like a cannonball

Descobriu o que sentia ao receber um beijo na testa ao som de um "amo você" sussurrado. Descobriu que gostava dele e que ele iria embora logo, não só do ônibus, não só naquele momento, mas em outro momento também, e talvez de forma definitiva - pelo menos a versão que ela conhecia. Talvez o encontrasse de novo, algum tempo depois, mas não seriam mais os mesmos, tinha certeza.

Descobriu o que sentia, mas sabia que não mudaria nada. Sabia que saber nunca mudava nada. Disse que gostava dele, mesmo assim. Só não disse que o amava porque sabia que ele decidiria ir embora no final, então optou por sinônimos como "não consigo imaginar minha vida sem você" ou "estou disposta a namorar contigo, te colocar na minha vida de um jeito que eu não fiz com ninguém antes. e é sério. e você sabe o que isso significa pra mim" - talvez fosse o suficiente. Queria que fosse o suficiente. Não queria dizer "eu amo você", pra depois ouvir um "eu também", pra depois ele virar as costas e ficar com ela - a outra -, como sabia que ele faria. Queria que fosse o suficiente, que ele entedesse, na mesma medida em que queria que ele ficasse.

Se arrumou mais do que o normal. Queria estar bonita, realmente bonita, quando ele viesse conversar com ela. Se arrumou mais do que o normal porque depois que ele dissesse que não ia acontecer, queria estar bonita pra se olhar no espelho e dizer pra si mesma que não estava tão mal assim, mesmo que por dentro estivesse na mais completa merda. Se arrumou pra levar um fora do cara que descobriu gostar ao receber um beijo na testa ao som de um "amo você" sussurrado - lamentou pelas noites no Arpoador que eles não tiveram depois daquela. Ficou com um nó na garganta até o último minuto - até que ouviu.

Ouviu dele o pior discurso que alguém que está sendo deixado, nessas circunstâncias, pode ouvir "eu gosto de você. você é realmente importante pra mim, eu sinto atração, eu era realmente louco por você. mas não posso fazer isso agora. e preciso dar um jeito de fazer o que eu sinto por você diminuir, porque eu não quero magoar ela. e eu quero ficar com ela. e eu vou apostar nisso agora". E chorou como não chorava há meses, chorou como não chorava por muita gente - mas não na frente dele. Na frente dele, disse, com aquela voz fraca de quem quer e vai chorar, que já sabia. Que já sabia e pronto.

Chorou depois, só. Por saber de tudo, e por fazer de tudo mesmo sabendo que tudo não mudaria nada. Mas é que não podia deixar de tentar, não é? Ela quis que dizer fosse o suficiente, e quis que ele não fosse embora. Nenhum dos dois aconteceu. Mas ela já sabia; ela já sabia que seria assim.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

when you know that you just don't know

Sabia que amava demais, ao mesmo tempo em que não sabia de nada. Sabia que o queria por perto, sabia que o queria realmente presente, sabia que não poderia viver mais sem ele. Não sabia o motivo de ter ficado tão encantada por ela, não sabia a razão de ficar tão magoada com a hipótese de não ser correspondida por ela, não sabia o porquê de querer tanto tê-la visto antes de ir embora. Sabia que gostaria de repetir com ele todas as noites de chuva ou todas as noites estreladas, sabia que queria o seu carinho e o seu abraço pra sempre, sabia que queria dividir a bala de hortelã com ele. Não sabia por que ficava tão nervosa ao ver o nome dela na lista de contatos, não sabia por que se sentia tão feliz quando ela manifestava interesse numa conversa, não sabia por que se sentia tão boba o tempo inteiro, ou por que o coração acelerava e então prendia a respiração ao vê-la aparecer. Sabia que queria beijá-lo enquanto desciam as escadas juntos, sabia que gostaria de passar a noite com ele depois do cinema, sabia que os dois dariam certo e poderiam até ser felizes juntos. Não sabia de onde vinha a vontade de fazer planos com ela, não sabia de onde vinha a sensação de queda livre por pensar nela, não sabia por que sempre lembrava dela como se pedisse desculpas quando se imaginava feliz com ele. Sabia que o amava demais. Não sabia ao certo o que sentia por ela.

(sabia que estava uma verdadeira bagunça)


quarta-feira, 2 de setembro de 2009

e-mail

Data: Tue, 25 Aug 2009 16:06:55
De: Cah
Para: Júlia Garcia
Assunto: ...

Sabe que eu estou com um bom pressentimento? Não são expectativas nem nada, é só uma sensação boa a respeito de tudo num geral. Como se lá no fundo eu soubesse que as coisas vão dar certo - ainda que eu nem saiba que coisas sejam essas.


Vou trabalhar de segunda à sexta, e ficar em casa nos feriados. Recebi o resultado hoje. As coisas deram certo, afinal.