quinta-feira, 27 de agosto de 2009

o nono andar da UERJ

Então ele teve uma DR com a garota dele, que não era eu, e eu estava muito satisfeita com isso - o fato de não ser eu. Então eu perguntei se ele queria falar sobre isso, e ele me contou a história toda, finalmente, e eu entendi o distanciamento e fiquei aliviada de não estar perdendo-o, muito embora a garota dele estivesse gritando em seu ouvido sobre o abraço que trocamos um pouco mais cedo - nada mais que minhas mais sinceras condolências à perda dele, que eu posso dizer que conheço, e nada mais do que um ser humano consciente faria por um amigo. Então ele disse que teria de saltar do ônibus pra ver algo sobre uma inscrição, e eu prontamente disse que iria com ele, sem esperar beijos demorados ou um quase-sexo ou um sexo despreocupado. Então subimos nove andares de elevador, resolvemos o que fomos resolver, e paramos para admirar a vista de lá de cima, que consistia numa linha férrea, o anfiteatro da faculdade, mais os dois prédios da faculdade, a avenida lá em baixo, e uma favela atulhada de gente miserável, porém tentando tornar a vida mais decente, as luzes de suas casas e seus barracos como pontinhos brilhantes entre as árvores do pequeno morro, uma espécie de vaga-lumes de mentira.

Falamos sobre a garota dele, falamos sobre a garota que não é minha, falamos sobre a gente, e o quanto a gente se ama, e em como isso nunca daria certo nem em um milhão de anos, mesmo se gostando tanto e se querendo tão bem como a gente se gosta e quer. Falamos sobre como não lamentamos esse fato, falamos sobre a importância dele na minha vida, e a minha importância na vida dele, falamos sobre como aprendemos tanto em tão pouco, e falamos sobre nossos amigo de perto e os de longe - eu falei muito sobre a Júlia; ele falou muito sobre o Igor. Falamos muito sobre o pouco que conhecemos, sobre o muito que queremos conhecer, e falamos então sobre todo o resto. Vimos carros passando lá embaixo, vimos pessoas passando lá embaixo, vimos trens passando lá embaixo. Eu lembrei de mim passando lá em cima, indo encontrar no Rio Grande do Sul aquilo que que faltava para eu ter alguma perspectiva de futuro e uma vontade de ter um futuro longo, ainda que não seja pra sempre - eu não suportaria se fosse pra sempre, talvez. Talvez.

Falamos sobre Agosto, falamos sobre o trabalho, falamos sobre a família, falamos sobre prédios de dezesseis andares e o que eles nos fazem sentir. Falamos sobre cores de cabelo e sobre amor à primeira vista. Falamos sobre o acaso, sobre como as coisas se ajeitam, falamos sobre tudo o que tivemos de passar para estar ali, parados naquele andar, como se aquele fosse o topo do mundo e como se todas as coisas das quais falamos e que desejamos fosse acontecer em três... dois... Falamos sobre um pouco de tudo e sobre um pouco de todos.

Falamos sobre nossas vidas, e, enquanto a chuva caía fininha, vimos que isso era bom.


2 comentários:

Julia disse...

gostei especialmente da tag "depois do trasgo montanhês". acho que se aplica!

te amo (L)

Pam Lima disse...

isso é lindo ♥