segunda-feira, 17 de agosto de 2009

catarse

Não era infeliz. Tinha bons amigos, uma boa casa, um trabalho razoável, e uns bons sonhos. Não era infeliz, e apagava a luz do quarto somente às 2h da manhã, às vezes às 4h, pensando com uma certa frequencia que talvez os vizinhos da frente pudessem ficar incomodados ou se sentir curiosos por conta da janela acesa. Mal sabia ela, porém, que os vizinhos não ficavam coisa alguma - nem incomodados, nem curiosos. Vá, talvez alguém se perguntasse, numa dessas idas ao banheiro no meio da madrugada, que diabos alguém faria acordado àquela hora, mas como não era sempre que acordavam para ir ao banheiro no meio da madrugada, não era sempre que se perguntavam coisas do tipo.

Não era infeliz. Mas noite após noite ficava até às 2h da manhã, às vezes até às 4h, escrevendo desesperadamente sobre a felicidade de gente saída de sua cabeça - talvez de seu peito e de sua memória. Noite após noite estava ela sentada, em frente ao computador ou a um caderno gasto, tecendo histórias onde o rapaz sentia que poderia fazer amor em Amsterdã com a menina ao lado, tecendo histórias onde uma menina estudante de Artes se descobre apaixonada e correspondida pela amiga, tecendo histórias onde a vida é mesmo muito boa, e ela, ele, todos acabam se encontrando uns nos outros.

Não era infeliz. Mas, inegavelmente, tudo o que escrevia estava intimamente relacionado ao que desejava desesperadamente para si. Mas, inegavelmente, escrevia toda a sua vontade de ser feliz - assim.

Um comentário:

Dri Sweet Pepper disse...

Quem é realmente infeliz nem liga pra felicidade alheia, sejam os alheios fictícios ou não.