segunda-feira, 22 de junho de 2009

aconteceu numa quinta-feira

Eu queria mudar de nome, confessou. Mudar de nome, endereço, e cor de cabelo. Você quer viver uma música farofa do Dinho Ouro Preto, gata, e não consigo pensar em nada mais triste que isso, eu disse, rindo. Ela riu também; riu um riso meio torto, daqueles que parecem que vão perder o equilíbrio e cair no chão, na grama úmida ou no concreto gelado. Você pode me chamar de Natasha, se quiser. Torci a cara para o nome, ela disse para eu não me preocupar, que escolheria um menos retardado. A gente riu de novo. Eu me joguei na grama, e ela jogou o corpo pra trás, apoiei a cabeça nos braços, e ela apoiou as mãos no chão. A gente ficou olhando o céu. Seria outro nome, recomeçou. Algo com "cê", como Carolina, ou Camila ou Clarisse - eu gosto desses. Ficou em silêncio. Mãos e punhos, antebraços e cotovelos e finalmente braços, todos escorregando na grama, devagar, até que deitasse ao meu lado, me olhando. E eu vidrado no céu, concordando mentalmente com seus gostos. Pode me chamar de Camila, se quiser. Ou de Clarisse. E Carolina?, perguntei. E Carolina, afirmou. Fechei os olhos, suspirei, e, em voz alta, gostei dos nomes, melhor que Natasha. Sorri. Acho que ela sorriu também. Um pouco de silêncio afagando cabelos e revirando estômagos, até que ela chegou mais perto. Jogou o braço sobre meu peito; deixei que deitasse no meu ombro. Mas eu faria uma tatuagem, talvez um piercing - não, talvez os dois. Várias versões dos dois, ou apenas algumas. Eu ri, gosto da idéia da tatuagem. E do piercing. No nariz?, perguntei. No nariz, confirmou, e na orelha também, por que não? É, por que não... Suspirei. Respirei fundo o topo de sua cabeça cheirando a doce e quis dormir. Você vai?, quis saber. Ela não disse, só acenou a cabeça fazendo que sim. Você não tem dezessete e seu nome não é Ana Paula, apontei. Eu também não tenho namorado - seus lábios roçaram meu pescoço ao falar - e nem quero me chamar Natasha, respondeu. Um pouco de silêncio tocando de leve o lado do corpo e soprando uma respiração no ouvido. Acho que vou te chamar de Clarisse, decretei. Ela sorriu. Agradeceu, se despediu. E foi.


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