domingo, 17 de maio de 2009

the things we find behind the door

Dia desses eu estava sentado no trem, ouvindo qualquer coisa no MP3, quando ela sentou do meu lado. Uma menina de estatura média, cabelos muito escuros e olhos muito pequenos. Sorria sozinha, se bem lembro, e vestia roxo. No pescoço carregava algum tipo de echarpe branca - maldito frio que pairou nessa cidade! -, e nas mãos levava um livro cujo nome infelizmente não me recordo. Ela pediu licença antes de sentar.

Olhei pra ela curioso, e ela sorriu pra mim. Retribui o sorriso, claro, não sou nenhum tipo de mal educado, mas ela entendeu mal e talvez tenha visto nesse pequeno gesto educado uma indicação de que ela poderia falar sobre qualquer coisa, pois foi exatamente o que aconteceu em seguida. Foi como se ela tivesse pego um livro numa estante aleatória e tivesse começado a narrar a história da vida de alguém que não fosse ela, porque falava com tanta naturalidade e espontaneidade que não parecia que aquela era a vida dela ou que eu não era um mero estranho.


(confesso que por um momento fiquei confuso e me perguntei se não nos conhecíamos de algum lugar - talvez eu tivesse apena esquecido o nome e o rosto dela, afinal! -, mas cinco minutos de conversa se passaram e eu ainda não sabia quem ela era).

Não perguntei seu nome, nem sei por que. Ela não me disse, e eu também não me interessei muito em saber. Tão simples! A menina da encharpe branca falava sobre os canários que tinha em casa e falava sobre soltá-los assim que chegasse, porque mesmo que tivesse a certeza de que eles não durariam muito depois de soltos, chegou à conclusão de que não poderia negar às pobres aves o direito de planarem livremente pelos ares. Ela também falou sobre os pais, sobre os dois amigos que amava e que não saberia viver sem, falou sobre sua paixão não correspondida, sobre sua faculdade de direito, sobre seu recém-adquirido estágio num escritório de advocacia no centro da cidade, e falou também de coisas banais do tipo "como fazer um bolo de cenoura perfeito" e que "é mesmo engraçado quando a gente sente o sorvete de flocos derretendo na boca e fica com aquela ânsia de mastigar o chocolate, porque daí a gente nunca sabe o que saborear direito". E eu não dava mais do que dezoito anos para ela, mas na verdade era quase vinte.

E eram quase vinte minutos de viagem, também, minha estação já estava chegando.

"A próxima é a minha", eu comentei; ela perdeu um pouco do sorriso, e eu notei que ficou genuinamente triste com a notícia, especialmente depois que sua resposta não passou de um "Ah". Os cinco segundos seguintes foram os daquele típico momento de silêncio constrangedor, até que ela finalmente o interrompeu com um comentário um tanto vago e distante de que ela "só não queria continuar", mas sabe quando você não tem muita certeza do que a outra pessoa te diz? Foi o que aconteceu comigo, eu não a ouvi direito, até mesmo porque eu tinha acabado de aumentar o volume do MP3 e já estava ajeitando a mochila para levantar.


Antes de ir afirmei ter gostado da conversa - ainda que eu não tenha feito mais do que acenar a cabeça e murmurar frases curtas e vagas como "Ah, sim" ou "Entendo..." -, e então fiquei de pé. Pedi licença a ela, sorrindo, ao que ela retribuiu também com um sorriso. E enquanto passava a seu lado, tive a impressão de sentir sua respiração tocar minha pele, talvez fruto de um logo suspiro dela, não sei dizer. Me dirigi até a porta.

O trem parou, e eu já estava cantarolando a música da playlist, quando decidi virar e comentar, tentanto fazer um pouco de graça - confesso, me senti um tanto culpado pelos "Ah, sim" e "Entendo" -, algo como "hey, não esqueça de soltá-los quando chegar em casa". Notei que limpava o rosto com as mãos e que tentava ser discreta ao fazer isso - talvez estivesse chorando -, mas abriu um largo e genuíno sorriso - me perguntei, de repente, o que não seria genuíno nela - e acenou a cabeça fazendo que sim.

Minha estação. Virei em direção ao trem a tempo de ver a porta se fechando sobre o rosto dela. Meu coração ficou ligeiramente apertado, e tive a certeza - tola, até -, de que aquela seria a última vez que eu a veria.




Hoje, lembrando do episódio, me ocorreu uma coisa sobre aquela menina, mas não gosto de pensar sobre isso.

Espero que ela esteja bem.



2 comentários:

Katherine disse...

tá, me dei o TRABALHO de logar no google chrome. hahahaha

que lindo. O_O me lembra um postsecret velho, não tenho mais certeza de como era, ou mesmo se era postsecret e não um outro blog qualquer. linda a história e linda a escrita.


:*

Cami Rocha disse...

;__;
queria comentar algo mais do que 'que lindo *-*' mas oi, a escritora aqui é vc, não eu. XD