sábado, 23 de maio de 2009

not alone

Morreu de tragédia, para a surpresa de muitos – ainda que digam que se jogou em frente ao carro de propósito, ao invés de mero descuido em seguir em frente.

O fato ocorreu quando tinha vinte e um anos:
já adulto, já com emprego, já cursando a faculdade - ainda adolescente em suas pequenas-grandes angústias em relação ao mundo, entretanto, o que lhe rendia horas à fio de filosofia de meio-fio, às vezes regada a álcool, às vezes não; às vezes sozinho, às vezes não; às vezes vazio, às vezes não.

Na fatídica data, estava nada mais nada menos do que atravessando uma rua, apenas seguindo seu caminho de volta para casa, e, pela primeira vez em tanto tempo, completamente sóbrio. Cantava alto, ria alto, e mais alto ainda sonhava, fazendo com que realmente acreditassem que nada seria capaz de alcançá-lo, nem mesmo um BMW a 128KM/h às 3:47 da madrugada.

Não se sabe o momento exato da morte, ou então não quiseram divulgar. Pode ter sido no primeiro impacto, ou no momento em que seu corpo aterrissou no chão. Não se sabe se sofreu demais, qual teria sido seu último pensamento, ou se gostaria de dizer uma última palavra. Não se sabe muito a não ser que meio segundo antes do choque ele sentiu mais medo do que em qualquer outra situação em sua vida. Talvez não quisesse morrer, afinal, mas quem quer de verdade?

O motorista fugiu do local, e os amigos entraram em pânico. O corpo ficou estirado no chão, num ângulo que ele mesmo chamaria de cômico, em meio a um silêncio aterrador que não muito tempo depois seria cortado por um íntimo e desesperado choro de negação, um grito de avise aos pais dele, e uma ordem de chame a ambulância agora, seu idiota.

Todas as medidas mostraram-se inúteis. A ambulância apenas constatou sua morte, e seus pais apenas constaram sua perda. Todos suspensos, todos vazios, todos sóbrios, e ele morto.

Em seu velório, pessoas fizeram discursos bonitos e emocionados. Lembraram sua vida, suas conquistas, seus feitos e suas vitórias. Os segredos, porém, permaneceram nas gavetas de seu quarto, em pequenos recortes de papel com confidências escritas à letra clássica de mão, narrando o primeiro porre aos quatorze anos, a primeira trepada com a prima de mesma idade, aos quinze, a primeira vez que fumou maconha aos dezesseis, a primeira vez que trepou com um cara, a paixão nunca declarada por cinema, a real origem da cicatriz em sua perna, a primeira orgia com os amigos, a reprovação na faculdade de engenharia, os cartões anônimos de aniversário, e uma carta de amor sem data ou destinatário.

Alguns acreditavam que ele ficaria feliz com a homenagem, embora outros afirmassem veemente que
onde quer que esteja está achando uma piada.

Não se sabe que fim tiveram suas roupas, seus livros, seus CDs, ou mesmo seus segredos de gaveta. Sabe-se apenas que não foi enterrado. Foi cremado, conforme sua vontade manifestada ainda em vida.


Costumava fazer uma vaga busca na agenda telefônica à procura de alguém que partilhasse não necessariamente as mesmas idéias, mas apenas o silêncio reconfortante de quem se está junto e se gosta apesar e por causa de tudo. Tentava chamadas que não eram atendidas, e chegava à conclusão de que às vezes algumas pessoas nascem para serem sozinhas até o fim de seus dias – o que foi parcialmente desmentido na madrugada em que veio a dar seu último suspiro. 

Morreu só, mas todos atravessaram.