domingo, 17 de maio de 2009

leaving

Ele vai te deixar.

E você se sente patética por estar ali, segurando uma lata de Coca-Cola, enquanto espera dele um convite mudo para um dia inteiro – ou um final de semana inteiro ou uma viagem inteira a St. Tropez - de sexo. 

Bem, você sabe que ele não vai falar sobre isso, ele espera que você - sempre solícita demais, sempre compreensiva demais, sempre efusiva demais para ele – o faça, e antes mesmo de aceitar o pedido que não vai vir, você sabe – tem certeza! – de que irá para cama com ele pelo que você já imagina ser a última “última vez”.

É quando você até pensa em negar o tal pedido, mas você nunca negou nada para ele em anos, e não será agora - justo agora! - que você irá começar. Justo quando ele vai te deixar.

x

Oh, ele vai te deixar.

Está na maneira como ele afrouxa a gravata, na maneira como engole em seco cada vez que olha nos seus olhos, na maneira como solta a xícara de café e a deixa sobre a mesa.

Você lembra de quando as coisas eram diferentes e sente saudades; estala a língua e suga um pouco da Coca-Cola pelo canudo; você suspira, sente o nó na garganta aumentando, fala alguma coisa com uma voz esganiçada demais até para você, mas ele não percebe que você quer chorar - ou que você já percebeu que ele vai te deixar.

Agora, agora ele prefere gastar seu precioso tempo observando a fumaça da xícara subir, ao invés de ficar vidrado no decote da sua blusa ou na barra curta da sua saia - porque ele vai te deixar, querida, e isso é um fato. Assim como o fato de que você o ama e que só estava esperando a oportunidade-certa-e-um-pouco-de-álcool para dizer “hey, amo você agora, há catorze anos atrás, até qualquer dia desses” nos ouvidos dele.

Você sorri de lado quando ele termina o café, ele sorri de lado quando você termina a Coca.

Você pensa que essa é a oportunidade certa, mas ao invés do álcool vocês têm cafeína demais no organismo, então talvez seja melhor deixar as juras de amor de lado e acabar com isso de uma vez. A última “última vez”.

x

Ele está te deixando.

Sem a porra de um fio de esperança, sozinha e com todas as histórias de infância e todos os planos que nunca acontecerão, repleta de marcas roxas pelo pescoço conforme vai correndo os lábios pela sua pele.

Ele está te deixando.

Sem uma única peça de roupa, em cima do sofá do quarto do hotel, e você até pensa em fazê-lo parar por aí, você até cogita a possibilidade de recolher suas roupas e o resto da sua dignidade, mas sua reação é a mesma de todos os anos desde que ele entrou pela porta do seu quarto pela primeira vez, você só consegue retribuir.

E isso te deixa com uma vontade filha da puta de chorar - nos braços dele, por causa dele, por-causa-dele-enquanto-finge-ser-por-outra-pessoa -, mas “filho da puta” é como você o chama em pensamento entre uma mordida de lábio e outra, entre uma respiração ofegante e outra, em cada cômodo e posição que vocês resolvem fazer sexo e experimentar pela primeira (e última, você lembra) vez.

Ele está te deixando, afinal, e você sabe disso.

Assim como sabe que um dia inteiro - ou um final de semana inteiro ou uma viagem inteira a St. Tropez -, de sexo não é o suficiente para fazer com que ele se apaixone por você ou que você o tire da sua cabeça.

Na verdade, isso só é suficiente para fazer com que seus lábios fiquem entreabertos enquanto vocês estão deitados, um ao lado do outro; ele olhando para o teto, e você olhando para ele, tentando arrumar alguma coragem pra dizer que o ama - mas você não diz. 

E é triste.

Enquanto seu braço descansa sobre o peito dele, acompanhando o ritmo de sua respiração, você precisa lembrar que ele está te deixando.

x

Você não precisa esperar por convites mudos para saber que está na hora de ir. Você recolhe a dignidade e as peças de roupa, você arruma suas malas, você repete para si mesma que é melhor assim – mesmo sabendo que o melhor para ele não é o melhor para você, e, nesse caso, talvez o melhor seja realmente para você.

Como recompensa, St. Tropez te presenteia com um fim de tarde cor-de-balas-de-goma - uma doce mistura de framboesa, cereja, laranja e abacaxi -, enquanto você não olha o menu e pede aquilo que você sabe que precisa nesse momento: uma xícara de café. Bem forte e bem amargo. Porque a vida não é um doce caro, a Coca-Cola é uma mentira que te deixa com celulite, e você realmente precisa de cafeína no seu organismo, pra se manter acordada enquanto ele dorme no hotel.

Você está sentada no mesmo lugar em que estava há alguns dias atrás, com a pequena diferença de uns 1544 km de distância, e sem canudos, ou Coca-Cola, ou “ele” a sua frente. Só há o vapor da xícara subindo diante dos seus olhos e a sensação de que agora você o entende. 

Você acompanha o sol deixar o horizonte de St. Tropez, num ritmo tão lento quanto à respiração dele há alguns minutos atrás, e finalmente pensa que talvez tenha perdido uma grande oportunidade; ninguém nunca vai te assistir dormindo da mesma maneira que você faz agora com o sol, ou que você fez com aquele cara antes de fechar a porta do quarto - enquanto você o deixava antes que ele deixasse você. Pela primeira e última vez.



Nota: não dava mais pra continuar sendo fic.


2 comentários:

Katherine disse...

num geral eu desaprovo textos em segunda pessoa. talvez porque muita gente já cagou em cima deles e não sei se há alvejante e saponáceo que salvem.

não vou dizer que é particularmente foda, como vários outros que tu já fez - fic ou não fic. parece menos tu do que os outros, eu acho, porque se demora mais no pensamento obcecado dela do que em brincar com as palavras, que é uma marca registrada tua. exceto alguns parágrafos - lembram muito Mesura, aliás, e dela você sabe a minha opinião.

não vou dizer primor, mas vou dizer muito bonito, com os momentos ~PUREGOLD~ onde deviam estar.

:*

brooke disse...

cara, curti muito. é tão... eu.