sexta-feira, 29 de maio de 2009

e todos ficamos ahhh

sabe, gata, nem sei se tu está aí, mas tu é minha janela aberta e tanto faz, tanto faz. fato é que ando com vontade de sair por aí e só voltar no dia seguinte, sem os amigos de sempre, daí quem sabe acabo fazendo alguns novos amigos pelo caminho, o que pintar, o que rolar, gente nova e diferente e completos estranhos, sem muitos laços ou vínculos, talvez os loucos da faculdade, talvez os loucos que pintarem nos bares. se pá um motel, nem sei gata, ando querendo tanta coisa, tanta tanta tanta! parece que injetaram euphoria, e-u-p-h-o-r-i-a, nas minhas veias, uma vontade de falar demais, tudo, com todo mundo, tão alto! vontade de vontades boêmias francesas, tudo muito sofisticado, algum cigarro, algum vinho, começa com uma música eletrônica bem alta em algum lugar e termina com um jazz num apartamento qualquer do centro da cidade e tanto faz, gata, tanto faz, porque chove, porque esse cheiro de terra molhada é bom, e mesmo que não chova tem tanta gente na rua ainda, e tanto faz, ainda têm as luzes, ainda existe a perspectiva do sexo completamente sem compromisso e sem nome e sem endereço e tanto faz, querida, o que importa é o novo, as novas amizades, as novas companhias, as novas sensações, como se fosse ano novo e tudo diferente e todas-as-almas-renovadas-amém!, happy new year, doismilenove, doismiledez, doismileetc., tudo novo, vida nova, novo porre, cidades novas, novos nomes, porque já chega desse nome antigo, de dezenove anos de memórias blasé, tudo tão blasé por isso nada como um palco improvisado no meio de uma praça, no meio de uma sala, no meio de qualquer coisa e de qualquer pessoa, e absolutamente nada como uma peça sem ensaio e alguns nomes flutuando nas nossas cabeças pra que nós os escolhamos e usemos naquela ocasião, somente naquela ocasião, porque depois não interessa, nada interessa muito, só essa divina comédia, a commedia dell'arte, pergunte ao arlequim, ou ao pierrot que tenta roubar-lhe o coração, pergunte a eles e quem sabe eles farão mais sentido que eu, hoje, completamente sóbria, completamente lúcida, sobrevivente dos contos do caio, querendo alguma coisa que talvez nem tenha nome ainda e nem sei, gata, nem sei, não sei de mais nada, sei-de-porra-nenhuma, e só quero sair por aí, pra longe, pra qualquer lugar onde não saibam meu nome e quem sabe, quem sabe quem sabe.


quinta-feira, 28 de maio de 2009

oh, oh, molko!


There are twenty-not-but-two years to go.

A golden age I know.


impressão pela noite

Um pouco de Pérsio e Santiago, meio a meio, fifty percent, uma história que não é a sua nem a minha nem a do Roberto - o Beto, por dez anos. Um pouco do vinho, do conhaque, do cartão-postal de Paris e dos números de chamada telefônica em três toques. O jazz, os socos, freeesco, e a Paulista sob uma chuva torrencial, Lavínia lasciva em lilás, tempestades nos olhos claros e é isso aí, frases deslocadas e tanta merda junta, um pouco mais de Pérsio, de histeria, e quanta histeria ele tem guardada junto de suas peças teatrais, e Santiago, tão tímido, tão dentro se si mesmo de uma maneira tão diferente da de Pérsio, dois estranhos numa sauna, numa sala, num parágrafo de bichos ariscos e coisas que estão sempre prestes, como uma sina, sempre prestes. God!, diria ele. Talvez dissesse Caio. Fifty percent, p-e-r-c-e-n-t, tente não esquecer disso, meu bem.



quarta-feira, 27 de maio de 2009

o poeta é um fingidor, finge tão completamente

que chega a fingir que é amor, o amor que deveras sente.


(Pessoa(s))


sábado, 23 de maio de 2009

not alone

Morreu de tragédia, para a surpresa de muitos – ainda que digam que se jogou em frente ao carro de propósito, ao invés de mero descuido em seguir em frente.

O fato ocorreu quando tinha vinte e um anos:
já adulto, já com emprego, já cursando a faculdade - ainda adolescente em suas pequenas-grandes angústias em relação ao mundo, entretanto, o que lhe rendia horas à fio de filosofia de meio-fio, às vezes regada a álcool, às vezes não; às vezes sozinho, às vezes não; às vezes vazio, às vezes não.

Na fatídica data, estava nada mais nada menos do que atravessando uma rua, apenas seguindo seu caminho de volta para casa, e, pela primeira vez em tanto tempo, completamente sóbrio. Cantava alto, ria alto, e mais alto ainda sonhava, fazendo com que realmente acreditassem que nada seria capaz de alcançá-lo, nem mesmo um BMW a 128KM/h às 3:47 da madrugada.

Não se sabe o momento exato da morte, ou então não quiseram divulgar. Pode ter sido no primeiro impacto, ou no momento em que seu corpo aterrissou no chão. Não se sabe se sofreu demais, qual teria sido seu último pensamento, ou se gostaria de dizer uma última palavra. Não se sabe muito a não ser que meio segundo antes do choque ele sentiu mais medo do que em qualquer outra situação em sua vida. Talvez não quisesse morrer, afinal, mas quem quer de verdade?

O motorista fugiu do local, e os amigos entraram em pânico. O corpo ficou estirado no chão, num ângulo que ele mesmo chamaria de cômico, em meio a um silêncio aterrador que não muito tempo depois seria cortado por um íntimo e desesperado choro de negação, um grito de avise aos pais dele, e uma ordem de chame a ambulância agora, seu idiota.

Todas as medidas mostraram-se inúteis. A ambulância apenas constatou sua morte, e seus pais apenas constaram sua perda. Todos suspensos, todos vazios, todos sóbrios, e ele morto.

Em seu velório, pessoas fizeram discursos bonitos e emocionados. Lembraram sua vida, suas conquistas, seus feitos e suas vitórias. Os segredos, porém, permaneceram nas gavetas de seu quarto, em pequenos recortes de papel com confidências escritas à letra clássica de mão, narrando o primeiro porre aos quatorze anos, a primeira trepada com a prima de mesma idade, aos quinze, a primeira vez que fumou maconha aos dezesseis, a primeira vez que trepou com um cara, a paixão nunca declarada por cinema, a real origem da cicatriz em sua perna, a primeira orgia com os amigos, a reprovação na faculdade de engenharia, os cartões anônimos de aniversário, e uma carta de amor sem data ou destinatário.

Alguns acreditavam que ele ficaria feliz com a homenagem, embora outros afirmassem veemente que
onde quer que esteja está achando uma piada.

Não se sabe que fim tiveram suas roupas, seus livros, seus CDs, ou mesmo seus segredos de gaveta. Sabe-se apenas que não foi enterrado. Foi cremado, conforme sua vontade manifestada ainda em vida.


Costumava fazer uma vaga busca na agenda telefônica à procura de alguém que partilhasse não necessariamente as mesmas idéias, mas apenas o silêncio reconfortante de quem se está junto e se gosta apesar e por causa de tudo. Tentava chamadas que não eram atendidas, e chegava à conclusão de que às vezes algumas pessoas nascem para serem sozinhas até o fim de seus dias – o que foi parcialmente desmentido na madrugada em que veio a dar seu último suspiro. 

Morreu só, mas todos atravessaram.

só pra constar

Se você está feliz e não quer estragar seu humor lendo coisas tristes, passe reto.
Se você está chateado e não quer piorar o seu humor lendo coisas tristes, passe reto também.

Não estou no mood de escrever textos alegres e fofinhoss sobre casais apaixonados, crianças risonhas e pasarinhos cantantes, portanto nem me darei o trabalho de tentar ou mesmo de fingir escrever algo do tipo. Na verdade, escrever todos esses pequenos dramas - vide posts anteriores- tem me feito bem - é bom jogar fora aquilo que muito nos incomoda e até nos tira o sono, portanto deixe-me curtir esta oportunidade, sim?

Poupe-se, poupe-me. É só um aviso amigo, nada mais que isso. Mas caso tu realmente não te importe com minha vibe atual, fique à vontade para continuar.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

do aço cirúrgico e das pedrinhas brilhantes

Não passa de um pequeno furo na curva do nariz, nada com o que se preocupar, nada para se temer, é tudo muito fácil, muito simples e muito seguro. Basta você escolher a pedra - ou deixar que ela escolha você, quem sabe -, gastar um tempo com isso em frente ao espelho, em frente aos amigos, e pedir opiniões “o-que-você-acha?" "eu não sei", eles respondem, e você suspira, impaciente.

É só um furo na curva do nariz, não tem mistério. Você escolhe a pedra, escolhe o tamanho, e ele é tão pequeno que você sente um medo um tanto irracional de que num suspiro muito longo, numa tentativa mais desesperada de se buscar por ar – e você sempre tem disso, de buscar desesperadamente por um pouco de ar fresco-puro-ou-algo-assim -, você acabe respirando ele, o que seria uma tragédia, mas não vai acontecer, você ouve. Não, não vai acontecer. 

É só aço cirúrgico.

Apenas um furo na curva do nariz, uma picada, os olhos lacrimejam por um minuto vinte e oito segundos e trinta e sete milésimos, você morde o canto do lábio direito e diz que ficou legal, talvez porque esteja mesmo legal. A pedra reluzindo à luz do dia a qual você não deveria estar exposta, mas tudo bem, tudo bem, é só um furo na curva do nariz e você ficou muito bem, gata, boa escolha.

Belo piercing.

dos cavalos brancos

(tori disse que as coisas mudariam muito rápido)

Eu deveria ter levado a câmera para escola mais vezes e tirado mais fotos. Deveria ter continuado na escola depois do meu horário só pra jogar vôlei. Deveria ter visitado aqueles amigos que eu não vejo há muito tempo, mas que eu penso todos os dias e sempre sinto saudades. Deveria ter pensado melhor antes de atirar meu telefone longe - eu não teria perdido números importantes. Deveria ter matado mais aulas de História enquanto ainda havia tempo, e deveria ter participado mais das aulas de Filosofia. Eu deveria ter levado as coisas um pouco menos a sério...

Deveria ter ido ao cinema com meus amigos para assistir "o filme das flores". Deveria ter dado um fim a certas coisas e deixado meu orgulho de lado. Deveria ter levantado daquela cadeira um pouco mais cedo. Deveria ter percebido os sintomas e aceitado tudo com menos resistência. Deveria ter me atrasado menos. Eu deveria ter discutido mais vezes ao invés de ter sido sensata.

Mas então as coisas mudaram e eu não vi, não percebi. A escola precisou acabar, a série precisou terminar, a amiga precisou ir embora pra eu enxergar que deveria ter sido diferente. Completamente diferente.

Certo.

A sorte é que eu ainda tenho tempo. E embora isso não anule a saudade, já é um começo.

(e eu gostaria que, só dessa vez, ela estivesse errada).

08/10/2007 - 22:24




Pouco mais de um ano depois, é bom constatar que tenho aproveitado melhor o meu tempo.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

full of broken thoughts i cannot repair

"Cartas de suicídio sempre são tristes, meu amigo. Não necessariamente porque alguém decidiu morrer, mas talvez porque alguém decidiu dizer uma última palavra antes de "puxar o gatilho" -  e últimas palavras sempre dóem, você sabe; por serem as últimas e por serem verdade. Ao menos na maioria das vezes, eu espero, e sei que você também.

Eu queria pedir desculpas. Por não ter ficado mais um pouco, quando eu sempre soube que você acreditava que eu ficaria. Mas, pensando bem, talvez você soubesse que era só uma questão de tempo; talvez você tenha passado esse tempo todo cruzando os dedos por mim, e fazendo o que podia para que eu visse ou encontrasse alguma nova razão para simplesmente não deixar todas essas coisas aqui, pela metade. Se esse foi o caso, obrigado por ter cruzado os dedos; se esse não foi o caso, obrigado assim mesmo, por ter me amado tão ingenuamente a ponto de resgatar a minha ingenuidade, tantas e tantas vezes, sem que ao menos você percebesse o que estava sendo feito.

Eu sei que amor não se agradece, sei que o ideal seria provar isso de alguma forma, com algum gesto, e sei também que essa minha atitude não é exatamente o que poderia ser considerada como prova de consideração e afeto, mas eu juro, meu amigo, eu juro eu juro eu juro eu juro: eu amo você. Mesmo agora, eu sei que amo. Como amigo, como pai, como irmão, como a melhor parte de mim - e eu sei que você é, talvez por isso tenhamos nos aproximado, afinal. Por que você nunca quis enxergar isso também?

Você nunca precisou me salvar. Não havia nada para salvar. Eu sempre fui um romântico emotivo e babaca - foram essas palavras que você usou daquela vez? Não lembro agora, mas isso sempre me fez rir. Estou rindo nesse exato momento - , todo mundo sabia que eu morreria cedo. Não se culpe, nem se sinta impotente, nem ouse pensar que você deveria ter feito alguma coisa. Eu sei que, na verdade, você não pensa assim. Sei que apesar de não concordar com essa atitude - e de estar me achando um tremendo de um idiota retardado que deveria ter o cu arrombado por castigo, não fosse eu estar morto agora (desculpe, eu sei, isso não deveria ser momento para piadas, mas eu nunca resisti) -, você entende que eu já não podia mais.

Sabe, eu realmente tentei. E haverão aqueles que dirão que eu não tentei o suficiente, mas cada um sabe dos seus problemas, não é? Eu tentei. Eu juro que tentei, eu corri atrás de cada grande coisa da minha vida, bem como corri atrás das pequenas coisas também - do bolo de aniversário, do campeonato improvisado de videogame, da faculdade, do emprego, do carro. Eu corri atrás disso tudo, tentando me fazer feliz e tentando fazer os outros felizes, também. Eu tentei. Eu tentei me relacionar, eu tentei me apegar, eu tentei sentir o que todas as pessoas devem sentir pelos amigos e familiares e amores. Eu tentei, e talvez em algum momento eu tenha conseguido alguma coisa, mas nunca era o suficiente. Nada disso, absolutamente nada disso nunca foi o suficiente pra mim.

E não era que eu não ficasse feliz, eu ficava! E aproveitava cada segundo, cada mínimo segundo como se fosse o último, com o maior prazer possível. Eu adorava estar ao lado de vocês, eu adorava rir, eu adorava correr, eu adorava as cócegas, eu adorava tudo. Diga isso a eles! Mostre isso a eles, eles precisam saber que eu os amava também, em tudo, apesar de tudo, por causa de tudo. Eu era feliz. Mas o vazio que vinha depois de tudo sempre foi proporcional àquela felicidade. Sempre faltava algo, e eu sempre procurava algo, mas nada era o suficiente. Nada me prendia mais, ou por muito tempo.

Eu não queria transformar tudo isso em loucura, e era o que ia acontecer se eu continuasse. Era o que estava acontecendo. Eu não consigo... eu não consegui. E, por favor, não deixe que eles pensem que eu falhei por causa disso, é só que não estava nas minhas mãos. E nem nas suas, devo lembrar, nem das mãos dos outros, nem mesmo nas mãos de Deus. 

E, sim, eu sei que poderia ter feito muita coisa e que poderia ter um futuro brilhante - todos sempre dizem isso -, mas será que eu realmente deveria fazer tudo isso que sonharam pra mim - quando eu mesmo sequer me interessei por todas essas "oportunidades"? Sabe, quando alguém faz esse tipo de escolha, as pessoas sempre pensam que foi uma história que acabou pela metade. Confesso que sempre achei esse um pensamento engraçado, pra não dizer irônico. Afinal, como essas pessoas poderiam saber tanto sobre a vida - que ainda não aconteceu! - dos outros?  A resposta pra essa pergunta sempre foi e sempre será: elas não sabem, nunca vão saber.

Talvez o que tinha de acontecer na minha vida, aconteceu durante esses vinte e seis anos. Só isso.
Em algum nível, apesar de tudo, eu sei que você entende, meu amigo. E espero que os outros entendam também.

Até.


P.S.: Eu gostaria que 'todas as minhas forças' tivessem sido suficientes. Especialmente por você e por ela, porque sabia da importância disso para vocês. ... espero que algum dias vocês possam me perdoar completamente."

Leio essa carta todos os dias desde o dia em que ele morreu. Já faz pouco mais de um ano. E eu finalmente o perdôo.


domingo, 17 de maio de 2009

the things we find behind the door

Dia desses eu estava sentado no trem, ouvindo qualquer coisa no MP3, quando ela sentou do meu lado. Uma menina de estatura média, cabelos muito escuros e olhos muito pequenos. Sorria sozinha, se bem lembro, e vestia roxo. No pescoço carregava algum tipo de echarpe branca - maldito frio que pairou nessa cidade! -, e nas mãos levava um livro cujo nome infelizmente não me recordo. Ela pediu licença antes de sentar.

Olhei pra ela curioso, e ela sorriu pra mim. Retribui o sorriso, claro, não sou nenhum tipo de mal educado, mas ela entendeu mal e talvez tenha visto nesse pequeno gesto educado uma indicação de que ela poderia falar sobre qualquer coisa, pois foi exatamente o que aconteceu em seguida. Foi como se ela tivesse pego um livro numa estante aleatória e tivesse começado a narrar a história da vida de alguém que não fosse ela, porque falava com tanta naturalidade e espontaneidade que não parecia que aquela era a vida dela ou que eu não era um mero estranho.


(confesso que por um momento fiquei confuso e me perguntei se não nos conhecíamos de algum lugar - talvez eu tivesse apena esquecido o nome e o rosto dela, afinal! -, mas cinco minutos de conversa se passaram e eu ainda não sabia quem ela era).

Não perguntei seu nome, nem sei por que. Ela não me disse, e eu também não me interessei muito em saber. Tão simples! A menina da encharpe branca falava sobre os canários que tinha em casa e falava sobre soltá-los assim que chegasse, porque mesmo que tivesse a certeza de que eles não durariam muito depois de soltos, chegou à conclusão de que não poderia negar às pobres aves o direito de planarem livremente pelos ares. Ela também falou sobre os pais, sobre os dois amigos que amava e que não saberia viver sem, falou sobre sua paixão não correspondida, sobre sua faculdade de direito, sobre seu recém-adquirido estágio num escritório de advocacia no centro da cidade, e falou também de coisas banais do tipo "como fazer um bolo de cenoura perfeito" e que "é mesmo engraçado quando a gente sente o sorvete de flocos derretendo na boca e fica com aquela ânsia de mastigar o chocolate, porque daí a gente nunca sabe o que saborear direito". E eu não dava mais do que dezoito anos para ela, mas na verdade era quase vinte.

E eram quase vinte minutos de viagem, também, minha estação já estava chegando.

"A próxima é a minha", eu comentei; ela perdeu um pouco do sorriso, e eu notei que ficou genuinamente triste com a notícia, especialmente depois que sua resposta não passou de um "Ah". Os cinco segundos seguintes foram os daquele típico momento de silêncio constrangedor, até que ela finalmente o interrompeu com um comentário um tanto vago e distante de que ela "só não queria continuar", mas sabe quando você não tem muita certeza do que a outra pessoa te diz? Foi o que aconteceu comigo, eu não a ouvi direito, até mesmo porque eu tinha acabado de aumentar o volume do MP3 e já estava ajeitando a mochila para levantar.


Antes de ir afirmei ter gostado da conversa - ainda que eu não tenha feito mais do que acenar a cabeça e murmurar frases curtas e vagas como "Ah, sim" ou "Entendo..." -, e então fiquei de pé. Pedi licença a ela, sorrindo, ao que ela retribuiu também com um sorriso. E enquanto passava a seu lado, tive a impressão de sentir sua respiração tocar minha pele, talvez fruto de um logo suspiro dela, não sei dizer. Me dirigi até a porta.

O trem parou, e eu já estava cantarolando a música da playlist, quando decidi virar e comentar, tentanto fazer um pouco de graça - confesso, me senti um tanto culpado pelos "Ah, sim" e "Entendo" -, algo como "hey, não esqueça de soltá-los quando chegar em casa". Notei que limpava o rosto com as mãos e que tentava ser discreta ao fazer isso - talvez estivesse chorando -, mas abriu um largo e genuíno sorriso - me perguntei, de repente, o que não seria genuíno nela - e acenou a cabeça fazendo que sim.

Minha estação. Virei em direção ao trem a tempo de ver a porta se fechando sobre o rosto dela. Meu coração ficou ligeiramente apertado, e tive a certeza - tola, até -, de que aquela seria a última vez que eu a veria.




Hoje, lembrando do episódio, me ocorreu uma coisa sobre aquela menina, mas não gosto de pensar sobre isso.

Espero que ela esteja bem.



leaving

Ele vai te deixar.

E você se sente patética por estar ali, segurando uma lata de Coca-Cola, enquanto espera dele um convite mudo para um dia inteiro – ou um final de semana inteiro ou uma viagem inteira a St. Tropez - de sexo. 

Bem, você sabe que ele não vai falar sobre isso, ele espera que você - sempre solícita demais, sempre compreensiva demais, sempre efusiva demais para ele – o faça, e antes mesmo de aceitar o pedido que não vai vir, você sabe – tem certeza! – de que irá para cama com ele pelo que você já imagina ser a última “última vez”.

É quando você até pensa em negar o tal pedido, mas você nunca negou nada para ele em anos, e não será agora - justo agora! - que você irá começar. Justo quando ele vai te deixar.

x

Oh, ele vai te deixar.

Está na maneira como ele afrouxa a gravata, na maneira como engole em seco cada vez que olha nos seus olhos, na maneira como solta a xícara de café e a deixa sobre a mesa.

Você lembra de quando as coisas eram diferentes e sente saudades; estala a língua e suga um pouco da Coca-Cola pelo canudo; você suspira, sente o nó na garganta aumentando, fala alguma coisa com uma voz esganiçada demais até para você, mas ele não percebe que você quer chorar - ou que você já percebeu que ele vai te deixar.

Agora, agora ele prefere gastar seu precioso tempo observando a fumaça da xícara subir, ao invés de ficar vidrado no decote da sua blusa ou na barra curta da sua saia - porque ele vai te deixar, querida, e isso é um fato. Assim como o fato de que você o ama e que só estava esperando a oportunidade-certa-e-um-pouco-de-álcool para dizer “hey, amo você agora, há catorze anos atrás, até qualquer dia desses” nos ouvidos dele.

Você sorri de lado quando ele termina o café, ele sorri de lado quando você termina a Coca.

Você pensa que essa é a oportunidade certa, mas ao invés do álcool vocês têm cafeína demais no organismo, então talvez seja melhor deixar as juras de amor de lado e acabar com isso de uma vez. A última “última vez”.

x

Ele está te deixando.

Sem a porra de um fio de esperança, sozinha e com todas as histórias de infância e todos os planos que nunca acontecerão, repleta de marcas roxas pelo pescoço conforme vai correndo os lábios pela sua pele.

Ele está te deixando.

Sem uma única peça de roupa, em cima do sofá do quarto do hotel, e você até pensa em fazê-lo parar por aí, você até cogita a possibilidade de recolher suas roupas e o resto da sua dignidade, mas sua reação é a mesma de todos os anos desde que ele entrou pela porta do seu quarto pela primeira vez, você só consegue retribuir.

E isso te deixa com uma vontade filha da puta de chorar - nos braços dele, por causa dele, por-causa-dele-enquanto-finge-ser-por-outra-pessoa -, mas “filho da puta” é como você o chama em pensamento entre uma mordida de lábio e outra, entre uma respiração ofegante e outra, em cada cômodo e posição que vocês resolvem fazer sexo e experimentar pela primeira (e última, você lembra) vez.

Ele está te deixando, afinal, e você sabe disso.

Assim como sabe que um dia inteiro - ou um final de semana inteiro ou uma viagem inteira a St. Tropez -, de sexo não é o suficiente para fazer com que ele se apaixone por você ou que você o tire da sua cabeça.

Na verdade, isso só é suficiente para fazer com que seus lábios fiquem entreabertos enquanto vocês estão deitados, um ao lado do outro; ele olhando para o teto, e você olhando para ele, tentando arrumar alguma coragem pra dizer que o ama - mas você não diz. 

E é triste.

Enquanto seu braço descansa sobre o peito dele, acompanhando o ritmo de sua respiração, você precisa lembrar que ele está te deixando.

x

Você não precisa esperar por convites mudos para saber que está na hora de ir. Você recolhe a dignidade e as peças de roupa, você arruma suas malas, você repete para si mesma que é melhor assim – mesmo sabendo que o melhor para ele não é o melhor para você, e, nesse caso, talvez o melhor seja realmente para você.

Como recompensa, St. Tropez te presenteia com um fim de tarde cor-de-balas-de-goma - uma doce mistura de framboesa, cereja, laranja e abacaxi -, enquanto você não olha o menu e pede aquilo que você sabe que precisa nesse momento: uma xícara de café. Bem forte e bem amargo. Porque a vida não é um doce caro, a Coca-Cola é uma mentira que te deixa com celulite, e você realmente precisa de cafeína no seu organismo, pra se manter acordada enquanto ele dorme no hotel.

Você está sentada no mesmo lugar em que estava há alguns dias atrás, com a pequena diferença de uns 1544 km de distância, e sem canudos, ou Coca-Cola, ou “ele” a sua frente. Só há o vapor da xícara subindo diante dos seus olhos e a sensação de que agora você o entende. 

Você acompanha o sol deixar o horizonte de St. Tropez, num ritmo tão lento quanto à respiração dele há alguns minutos atrás, e finalmente pensa que talvez tenha perdido uma grande oportunidade; ninguém nunca vai te assistir dormindo da mesma maneira que você faz agora com o sol, ou que você fez com aquele cara antes de fechar a porta do quarto - enquanto você o deixava antes que ele deixasse você. Pela primeira e última vez.



Nota: não dava mais pra continuar sendo fic.


quarta-feira, 6 de maio de 2009

on the road

2009 começou com uma planilha de excel e um site de passagens aéreas. Começou com planos, com vontades loucas, com pesquisas sobre rotas e agências de viagem, e uma necessidade assustadora de simplesmente colocar os pés nas estrada e ir embora - a qualquer momento, para qualquer lugar, para casa.

2009 está quase pela metade, e eu tenho a sensação de que tudo dará certo. O sonho se tornará realidade dentro de pouco mais de um mês, e finalmente encontrarei algumas das minhas maneiras de sorrir que foram espalhadas pelo país. Eu as encontrarei com biscoitos globo, com uma câmera fotográfica, com um livro do Caio, e com os braços bem abertos - assim como os do Cristo Redentor, no alto do Corcovado. Levarei um pouco do Rio para elas, e deixarei que elas deixem um pouco de si em mim - mais do que deixam a cada dia, a cada conversa, a cada riso e gesto delicado de amizade.

2009 começou com uma idéia de pés nas estrada, e eu já estou pronta para pegar a mochila, calçar o all star, e seguir em frente - o que me faz pensar que não nasci para fincar raízes, e eu não vou. Falta bem pouco, agora 


- 3, 2, 1... 2009 e os fogos de artifício.

"Para mim, pessoas mesmo são os loucos, os que estão loucos para viver, loucos para falar, loucos para serem salvos, que querem tudo ao mesmo tempo, aqueles que nunca bocejam e jamais dizem coisas comuns, mas queimam, queimam, queimam como fabulosos fogos de artifício, explodindo como constelações em cujo centro fervilhante — pop — pode-se ver um brilho azul e intenso até que todos “aaaaaaahh!”
(On the Road, de Jack Kerouac)

sexta-feira, 1 de maio de 2009

desde aquela época

knowing nothing is better than knowing at all