terça-feira, 31 de março de 2009

segundo corredor à direita



-- seção das crônicas ordinárias e dos porta-retratos.





Vítor me aborreceu desde o primeiro momento. E confesso que hoje não sou capaz de lembrar das primeiras palavras que dirigiu a mim - tampouco me recordo de minha resposta a ele -, mas suponho que o primeiro contato tenha sido intenso o suficiente para determinar a maneira como todos os outros encontros (e a relação que se desenvolveu a partir daquela primeira discussão) seriam – fossem eles de natureza sexual ou mesmo fraterna. Vítor foi, possivelmente, o meu melhor amigo. Não importa se ao meu lado na cama, se ao meu lado numa mesa de bar, ou mesmo se sentado em um meio-fio qualquer, enquanto me contava histórias sobre a vida de estranhos. No fim do dia, eram as mãos dele que costumavam afagar meus cabelos até que eu conseguisse dormir.









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quinta-feira, 26 de março de 2009

da quebra

-- seção das crônicas ordinárias e dos porta-retratos.


Clarisse deu dois passos em direção à porta e hesitou. Eu esperei - e me perguntei se ela poderia ter agido de maneira mais clichê que aquela. 


(Confesso que senti falta da maçaneta. A que ela deveria segurar enquanto estivesse ponderando, medindo seus próximos passos. Era algo que deveria fazer parte da cena, eu tinha certeza. Mas a maçaneta ainda estava a pouco mais de um metro de distância, e não havia nada em que Clarisse pudesse se apoiar para escolher, nem que por alguns segundos - assim como não havia nada em que eu pudesse focar que não fosse ela ou o nome dela, como no dia em que a conheci).


Eu esperei, de qualquer forma.


(às vezes acho que havia uma cláusula de letras pequenas em nosso acordo mudo, que dizia que eu deveria ficar, e ela ir).


Mas, e isso eu descobri depois, talvez eu não tenha esperado o suficiente.


(nosso acordo mudo se encerrou no momento em que eu não fiquei. No momento em que ela voltou - como eu poderia saber, afinal?).


quarta-feira, 25 de março de 2009

daquilo que muda

Eu não preciso mais ouvir aquelas músicas, eu não preciso mais rir daquelas piadas, eu não preciso mais fingir interesse, eu não preciso mais me preocupar em estar lá, eu não preciso mais perder a fala, eu não preciso mais conter isso, eu não preciso mais tentar esquecer, eu não preciso mais daquele lugar, eu não preciso mais daquela paisagem, e estou fortemente inclinada a acreditar que eu não preciso mais de você.

(acho que hoje dormirei feliz - ou, no mínimo, com a consciência mais tranquila).

domingo, 22 de março de 2009

dos números

Esses dias eu estava divagando sobre a minha total inabilidade com os números.

Começou quando eu estava pensando sobre todos os zeros à direita do número onze, e em como isso poderia resultar em onze milhões de pessoas mortas ou desaparecidas por causa do holocausto; depois, pensei nos zeros ao lado do oito, dando forma aos oitocentos mil mortos no genocídio de Ruanda.

Acontece que um matemático qualquer diria que onze milhões é um número muito superior a oitocentos mil,  e que talvez por isso a História tenha livros e mais livros sobre os extermínios nos campos alemães, ao invés de livros e mais livros sobre os assassinatos de um povo africano - mas essa é só uma sugestão, afinal ele é matemático e não historiador.

E mesmo depois de tanto pensar e de tanto colocar um número ao lado do outro, mesmo depois de analisar a hipótese e/ou teoria que o matemático me apresentaria, não consegui enxergar essa distinção. E talvez eu nunca enxergue, afinal, mas então não será por causa da minha inaptidão com os algarismos hindu-arábicos, mas sim porque talvez não exista distinção entre tantas pessoas e famílias e amigos que perderam a vida só porque eram um pouquinho diferentes dos seus assassinos.

As coisas não deveriam ser assim. Não deveriam ser onze milhões de europeus tomando conta de algumas milhares de páginas de livros, e oitocentos mil africanos recebendo algumas notas em algum lugar. Se é pra fazer história, então que esta seja feita em nome das onze milhões e oitocentas mil pessoas que morreram só porque a humanidade tende a ser MUITO retardada. Porque começa assim, com uma pequena divergência sobre a importância de uma contagem, mas termina em alguma câmara de gás, ou sob o fio de algum facão.

Bem, talvez eu prefira continuar na minha ignorância matemática.

quinta-feira, 19 de março de 2009

daquilo que fica

"A benção, vó"
"Deus te abençoe"

terça-feira, 17 de março de 2009

da vida desperta

"Resumindo, eu penso que a mensagem aqui é que nós nunca deveríamos nos subestimar ou nos ver como vítimas de várias forças. A decisão por sermos quem somos é sempre nossa."

-- Waking Life

ou seja, lembre

Eu já tenho você em Ipanema, no Arpoador, e em uma série de outros lugares. Seria loucura te levar pra casa também - pra onde mais eu poderia correr depois de tudo?

quarta-feira, 11 de março de 2009

random like me

-- roubado de várias pessoas.

Answer the questions below, do a Google image search with your answer, take a picture from the first page of results, and do it with minimal words of explanation.


1. The age at your next birthday.


2. A place you'd like to travel to.



3. Your favorite place.


4. Your favorite food.


5. Your favorite pet.


6. Your favourite colour combination.


7. Your favourite piece of clothing.


8. Your all-time favourite song.



9. Your all-time favorite tv show.


10. The town in which you live in.


11. Your screen name/nickname.


12. Your first job.


13. Your dream job.


14. A bad habit you have.


15. Your worst fear.


16. The one thing you'd like to do before you die.


quinta-feira, 5 de março de 2009

segundo corredor à direita

-- seção das crônicas ordinárias e dos porta-retratos

Alexandre. Acho engraçada a maneira como o nome dele sempre me faz pensar em coisas que - em dias normais ou com outras pessoas - eu nunca pensaria. Casamento e filhos, vestido de noiva e risadas de bebê. Ele é só meu amigo, mas talvez seja a única pessoa capaz de gerar em mim a vontade de assumir um compromisso. A única pessoa que, durante cada abraço, em cada "olá", me faz fechar os olhos e imaginar a vida que eu sempre tive medo de sequer sonhar. (...) Não vai acontecer.





~ histórias que não existem de pessoas que não existem. Alguns nomes são emprestados da vida real, bem como alguns poucos sentimentos, mas nada muito sério. Tudo aqui é faz-de-conta. (:

quarta-feira, 4 de março de 2009

das teorias do centro do universo

Tenho o péssimo hábito de acreditar que alguns textos ou declarações foram escritos exclusivamente para mim - ou por causa de mim -, ignorando completamente o fato das pessoas terem uma vida tão independente da minha.

Sim, eu sei que é normal isso acontecer, principalmente quando o nome dos destinatários não são mencionados, mas, convenhamos, continua sendo uma atitude tão egocêntrica! Se fulano ama, eu não deveria ficar supondo e até insistindo - lá no fundo da mente - que ele me ama, apesar de realmente parecer isso; se fulano odeia, eu não deveria ficar supondo e tentando buscar uma solução - a qualquer custo - para a mera suposição de que ele me odeia - principalmente se eu não possuir qualquer intenção de confirmar algum dos meus achismos.

É retardado ficar buscando muito de si mesmo na vida das pessoas, buscando indícios de que se é importante o suficiente para ser digno de nota ou menção num post do livejournal/blog/flog.

Acho que estou precisando de um Galileu Galilei na minha vida, pra minar todo esse sentimento geocentrista de que universo gira ao meu redor e incutir a idéia de que existe um Sol no meio disso tudo - ainda que eu sequer tenha-no conhecido.

segunda-feira, 2 de março de 2009

segundo corredor à direita

-- seção das crônicas ordinárias e dos porta-retratos.


Clarisse surgiu em minha vida num dia comum. Diferente da maneira como todos gostam de lembrar o primeiro amor – ou a primeira paixão, ou a-primeira-vez-em-que-a-garganta-ficou-seca-sem-que-o-culpado-fosse-o-clima -, gosto de manter nítida em minha mente a imagem prosaica daquela data, onde não havia um-delicado-movimento-de-cabelos a ser notado, ou mesmo uma-cor-de-olhos para chamar a atenção. Não havia perfume marcante, ou mesmo uma voz suave - só havia ela; e nenhuma outra lembrança além dessa, ou de seu nome.










~ histórias que não existem de pessoas que não existem. Alguns nomes são emprestados da vida real, bem como alguns poucos sentimentos, mas nada muito sério....

domingo, 1 de março de 2009

but now i'm coming home

Sempre invejei a amizade entre Harry, Ron e Hermione, porque quanto mais eu conhecia a dinâmica dos três, mais eu me perguntava quais seriam as chances de se existir uma amizade daquele jeito, tão grande e tão forte, tão improvável e tão incondicional...

E então o tempo passou. E eu conheci algumas pessoas realmente queridas. E então eu percebi que não precisava mais invejar Harry, Ron e Hermione, porque tanto aqui perto quanto a mil quilômetros de distância, acabei criando grandes e fortes amizades, de maneiras definitivamente improváveis e curiosamente incondicionais.

Lolz. Eu tenho os melhores amigos do mundo. Os de perto e os de longe, fazendo planos de me surpreender com um bolo no portão de casa, ou planos de viagem. E eles são os melhores nem tanto pelo bolo em si ou pelas passagens, mas sim pelo fato deles se empenharem e se interessarem e se importarem em me fazer feliz.

Eles são minha casa. E eu sou a pessoa mais feliz, mais completa do mundo por eles me proporcionarem essa sensação, a de que eu tenho um lar pronto pra me receber - depois de muito tempo longe.