segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

da dormência causada pelo sorvete (de baunilha)

Imagine um cidade aleatória, um clima de 35°C, e um simpático pote de sorvete em uma de suas mãos. Agora imagine a textura do tal sorvete, imagine o sabor, o ligeiro choque térmico entre o doce gelado e a sua língua talvez quente demais para ele. Adicione um pouco de essência de baunilha, pra finalizar - ou então, um pouco da essência de qualquer outro sabor de sua preferência.

Após o que pode ser a décima segunda colherada, tente vivenciar a sensação de dormência na ponta da língua. Tente vivenciar a ligeira insensibilidade do órgão, provocada por um punhado de prazer sazonal comumente consumido em dias quentes - ou frios, se você também gostar da ardência na pontas dos dedos.

Agora pare um pouco; reflita um pouco comigo.

Note que talvez algumas de suas melhores relações e interações não passaram de um sorvete de casquinha, de potinho; não passaram de um picolé comprado no quiosque ali da praça num dia quente de verão ou durante uma chuva fininha no inverno.

Note, por gentileza, que as pessoas dessas relações foram (e são) capazes de escorregar através da sua vida da mesma forma que o sorvete escorrega pela sua língua e pelos seus dentes. E note, ainda, o gosto que elas deixam e a sensação de dormência na ponta da língua, note que às vezes não importa o quanto tudo é gostoso ou fácil de digerir, pois a insensibilidade sempre surgirá após, quem sabe, a décima segunda colherada ou sétima degustação sob os lábios.

Algumas pessoas são como sorvetes num dia de verão ou de inverno:

Surgem para você se apresentando como uma boa oportunidade, como uma boa idéia para a ocasião. Fazem você fechar os olhos por alguns segundos e pensar "wow, como isso é bom", e até têm lá sua utilidade perante os 35°C, ou perante a chuva fina - para o caso de você realmente querer sentir a ardência na ponta dos dedos. No fim, elas te deixam ligeiramente dormente, num estado tão apático quanto o da língua onde aquela mistura gelada de essência de baunilha acabou se dissolvendo.

Nunca sobra muita coisa - das pessoas, ou do sorvete -, nem mesmo a dormência.

(Note. Fazer tudo isso passar é realmente fácil).

Um comentário:

Nadiajda disse...

Cah, alguma vez eu já disse que sou tua fã? Se não disse, estou dizendo agora. Porque é muito lindo quando as pessoas escrevem coisas e a gente pára e diz: 'Mas caralho, é isso mesmo!'.

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