quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

cause tonight's the night the world begins again

Aconteceu em dezembro do ano passado. Ele disse que eu deveria escrever - muito, demais. Escrever toda e qualquer brainstorm que me acordasse, que me atormentasse, ou mesmo que eu odiasse - ainda que o ideal fosse escrever as que me apaixonassem. Ele disse que escrever era válido, sempre, tudo.

O engraçado é constatar, revendo os posts daqui, que acabei escrevendo todas essas brainstorms que ele citou. As que me me acordaram no meio da noite, as que me atormentaram durante horas ou meses, as que eu odiei com todas as minhas forças, e especialmente as que me apaixonaram.  E depois de perceber isso, queria muito dizer que meu 2009 foi maravilhoso, ou mesmo tranquilo, mas se você leu ao menos parte desse blog, então talvez você concorde comigo que a maioria das brainstorms aqui compartilhadas são mais tempestade do que bonança.

Não foi um ano ruim. Já tive anos piores, já tive até dias que pareceram anos intermináveis e aterrorizantes. Dois mil e nove não foi um ano ruim, de forma alguma. Só não foi tão bom quanto podia ter sido, eu acho. Teve um mês maravilhoso e inesquecível - julho ♥ -, mas confesso que o resto foi completamente dispensável, salvo algumas pessoas e as situações nas quais estive com elas. Em 2009 faltou ver o mundo. Em 2009 faltou registrar o mundo, talvez. Faltou presença. Faltou abraço. Faltou até mesmo música, quando a música era necessária.

Para 2010, quero o que 2009 não me deu, e o que não consegui tirar de 2009. Quero um calendário de planos diários, e não uma contagem regressiva para conseguir uma corda de salvação. Aliás, quero que todos os dias sejam cordas de salvação. E quero, também,  as tempestades - eu sempre quero as tempestades -, pra enfrentá-las com uma capa de chuva, ou então com o peito aberto e a vontade de lavar a alma.

Feliz ano-seguinte, a quem possa interessar.
:*




'cause i don't need boxes wrapped in strings,
and desire and love and empty things.
just a chance that maybe we'll find better days



domingo, 27 de dezembro de 2009

boa noite

"Fiquei feliz com o comentário dela, mas não entendi por que ela disse isso".
"Bem, você foi comigo numa festa na Ilha, conheceu e falou com metade dos convidados numa festa que não era de nenhum dos seus amigos, convenceu um taxista a ludibriar a polícia levando cinco pessoas no carro dele, num dia de blitz, às 1:30 da madrugada, só porque estava preocupada com todo mundo, deixou meus amigos em casa, e ainda pagou o táxi. Você realmente acha que ela precisava listar isso tudo?"
"Ah".

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

excerto de natal

Ah, coração, essa época de festas me deixa um pouco em pânico. São todas essas pessoas sonhando um mundo novo e melhor, se abraçando e fazendo boas ações e querendo ser gentis, cantando cantigas natalinas e desejando prosperidade, prosperidade, prosperidade. E eu aqui, sentada nessa cadeira de balanço antiga, com meus recém vinte e um anos como se fossem cinquenta aniversários nas minhas costas. Quero encostar o queixo nos joelhos e abraçá-los com força, enquanto olho toda essa gente de sorrisos brancos e tão tão felizes, como em comerciais de margarina. Quero apertar meus pulsos, e fazer minhas unhas machucarem minhas palmas, reprimindo a vontade que tenho de acabar com as festas pra dizer que feliz natal de cu é rola, que espírito natalino não deveria ser especial, deveria ser um estilo de vida em tempo integral, e não um especial a ser transmitido na televisão durante o mês de dezembro. Eu quero levantar, coração, eu juro que quero, mas ao mesmo tempo não me acho no direito de acabar com a festa, porque penso que talvez eles estejam realmente felizes, penso que talvez isso realmente signifique algo para eles além de um cara velho distribuindo presentes, e mesmo que seja só isso, se eles realmente se sentirem completos e gratos por esse momento, como eu poderia tirar isso deles? Como eu poderia destruir isso? Mesmo achando-os pequenos, mesmo achando-os mesquinhos e hipócritas e medíocres, como eu poderia acabar com a idéia simplória que eles têm de felicidade quando essa é a única coisa que eles têm de verdade? Eu fico aqui, coração, eu permaneço. Imóvel, quieta, em silêncio. Talvez eu seja só uma covarde, vai saber. Talvez eu devesse estar curtindo as festas como eles, como todo o resto, mas talvez isso tudo só não seja pra mim. É natal, estão todos comemorando, mas eu só estou feliz que não precisarei trabalhar amanhã.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

goodbye

"I don't love you anymore"
"Since when?"
"Now. Just now."



Foi de repente, como uma epifania. Como se o tempo todo existisse um interruptor escondido, e que finalmente tivesse sido descoberto e desligado por mim. Foi estranho, também. Ele falou, e eu senti todas as cordas, todos os laços, todas as linhas que me prendiam a ele simplesmente desaparecendo, arrebentando, se dissolvendo. Se naquela noite eu senti meu peito ficar mais pesado, naquela manhã eu senti que minha existência podia ser leve e agradável de novo. Eu fiz uma pergunta, e acho que ele foi sincero em sua resposta - 100% superado. Então é diferente de quando você ouve de todo mundo, de todos os seus amigos; porque depois que você ouve da boca dele é que você pode ter certeza de que, apesar de todo o bem que ele te fez um dia, ele não era nem é o cara. 

Sei que eu amei demais. Cada lembrança, cada palavra, cada gesto. Sei que eu amei demais, e que poderia tê-lo amado demais pelo resto da minha vida, se fosse o caso, mas não, não foi caso nenhum. Na verdade, comigo e com ele, talvez tenha sido sempre o acaso. Calhou dele aparecer na minha vida, calhou dele se apaixonar primeiro, calhou de eu me apaixonar tarde, calhou de ele desistir cedo, calhou de eu desistir, por fim. Só sei que eu o amei demais, que eu o amei com uma intensidade pavorosa e desesperadora, mas como tudo que é muito intenso e desesperador, talvez tenha se consumido na mesma velocidade que se fez presente, na mesma proporção de sua existência. 

Não menti um momento sequer, tenho certeza. Minhas olheiras de quatro meses, minhas lágrimas quase diárias, todas as coisas que eu escrevia e precisava tirar de mim com uma urgência terrível, nada disso me deixa mentir, foi tudo verdade. O que acontece é que ele não foi a história da minha vida, como eu gostaria que fosse e como poderia ter sido. Soube disso quando ele respondeu minha pergunta - 100% superado. Ele estava bem, e eu havia passado. Foi naquele momento que tive a mais absoluta certeza de que o que eu sentia por ele também ia passar. Não nasci pra ser infeliz. Enquanto houve alguma esperança, continuei. Mas sei aceitar um fim, quando me presenteiam com um. 

Acabou. E não prometo que seja a última vez que falarei dele aqui, mas talvez não haja mais necessidade de exorcizar nada. Só lamento pelo amigo que perdi no meio disso tudo. Talvez eu fale dele como se tivesse morrido, já que é assim que sinto sua falta. Não sei. Só sei que é bom respirar de novo, sem nada sufocando meu pescoço.


domingo, 20 de dezembro de 2009

do quarto vazio

Talvez fosse tédio. Talvez fosse meu cansaço, talvez fosse o repentino estado blasé que tomou conta do meu espírito, talvez fosse a noite que, um dia antes, tanto prometia, e que naquele momento não representava mais nada. Não sei o que me levou a fazer isso, não sei de verdade, e ainda estou processando o absurdo de toda a situação. Eu estava sóbria, é importante frisar. Mas não posso dizer que estava lá muito lúcida - embora minha mente não tivesse se desligado um minuto sequer, todo o fluxo de pensamentos das últimas semanas correndo e escorrendo por cada neurônio, muita dinâmica dentro e fora da minha cabeça. Sinceramente, deve ter sido meu momento mais inconsequente da face da terra. Irremediável, sem volta, mas igualmente sem culpa, sem pudor, sem arrependimento. E hão há satisfação, não há felicidade, não há nada disso. Só há uma informação registrada no fim da madrugada, a de que eu quis, eu procurei, eu fiz, só porque me deu vontade e porque eu podia, talvez, e então resolvi que seria seria seria. Feito uma garotinha mimada e birrenta. Eu escolhi a pessoa, eu escolhi a hora, eu escolhi o lugar, e escolhi a posição. Foi tudo eu eu eu, toda a responsabilidade é minha, e se realmente houver alguma culpa, ela também é minha - e eu também não me importo se houver; ao menos, não estou me importando agora. É só uma informação, só um fato, um registro vago de algo que aconteceu porque eu fiquei louca. Como se quisesse provar que poderia levar esses jogos de estratégia para níveis cada vez mais altos e cada vez mais obscenos. Tá legal. Eu não sei o que eu queria provar, de verdade, mas tenho certeza de que não provei nada. Quando deitei minha cabeça no travesseiro, às 5:40 da manhã, era como se nada tivesse acontecido - e eu nem estava me esforçando pra isso. Eu não ligo. Talvez eu ligue daqui a algumas horas, daqui a alguns dias, daqui a alguns anos, mas não ligo agora. Só me dá vontade de rir. Eu não estou feliz, mas me dá vontade de rir.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

um dia (ou quase isso) na vida da cah

Faltava muito pouco pra eu ir embora. Acho que eram umas 17:10 quando o chefe-mór ligou, e eu saia às 17:30. Foi só ouvir a voz dele que pensei "ai". E pensei certo, já que ele começou a falar muito rápido que o documento xis devia ser providenciado e que precisaria estar em São Paulo na manhã seguinte.

E lá fui eu, mobilizando RH, malote, cartório, motorista do chefão-mór, jurídico habitacional, e até mesmo a informática pra conseguir o tal documento. Foi uma loucura!, acho que os cinco telefones do setor tocaram ao mesmo tempo, e eu puxando as linhas e atendendo o que eu podia, tonta tendo de assimilar o que todo mundo falava, dizia e mandava eu fazer. Sério, se eu tratasse dos assuntos do callcenter na velocidade que eu falava com as pessoas hoje, meu supervisor ficaria muito orgulhoso do meu TMA (tempo médio de atendimento). Pois é.

No fim, tudo deu certo. E eu, que ia sair do trabalho às 17:30, saí do trabalho às 19h, respirando aliviada depois de falar com o chefão-mór que os documentos foram providenciados e que seguiriam pra São Paulo amanhã cedo, de avião, com a funcionária chilena da empresa. Desci as escadas com aquela sensação maravilhosa de dever cumprido, e louca de vontade de entrar no ônibus e vir dormindo no caminho pra casa.

Me fodi. Coloquei o pé pra fora do prédio, e começou a chuviscar. O céu estava escuro, escuro pra caraca!, e cinza-grafite era até apelido pra cor do céu naquele momento. Acho que quase chorei, eu praticamernte me vi chorando!, porque seria mesmo muito muito chato se chovesse depois do dia louco atrás do documento. Desci as escadas correndo e passei pelo portão da empresa, pensando que seria melhor pegar um trem, pra não correr o risco de ficar presa no metrô caso faltasse luz, nem de ficar presa duas ou três horas no trânsito caso o Maracanã estivesse submerso. Cheguei no ponto e estava vazio, aliás, a rua toda estava completamente deserta, a não ser pelo Sérgio Reis, um senhor que trabalha no segundo andar e mora no bairro vizinho ao meu. Ele perguntou se eu ia de trem, eu disse que sim, daí ele disse que ia me acompanhar. Agora só faltava o ônibus chegar!

E o ônibus não chegava. Daí resolvemos que pegaríamos o primeiro veículo automotor que fizesse o transporte de pessoas de bem e que aceitasse dinheiro por isso. Apareceu uma kombi meio furreca e foi nela que entramos - uns 10 segundos depois o ônibus passou pela gente e eu pensei "murphy, seu puto". (Preciso dizer que Sérgio e eu ficamos um pouco tensos quando vimos a nuvem negra se estendendo sobre a Central, pensando se aquilo realmente em cima daquele lugar ou se seria apenas uma forte impressão). Quando descemos da kombi, ainda chuviscava, então ficamos aliviados, era mesmo impressão. Atravessamos a Presidente Vargas meio correndo, todo mundo avançando o sinal vermelho dos pedestres, confirmando o ditado do irmão e da Natália "multidões não são atropeladas".

Chegamos à Central e aquele monte de gente, hm, não-bonita correndo de um lado pro outro por causa da chuva e procurando os trens. Esperei o Sérgio da fila do bilhete (eu não precisei entrar nela, RioCard é um adiantos), e depois fomos atravessar a roleta. Quando aproximei meu cartão do visor da roleta, faltou luz. Vi um bocado de gente saltando as roletas, um bocado de gente correndo, e um bocado de gente gritando - ah, tá, como se o prédio fosse desabar nas nossas cabeças só porque faltou luz. Sério, não entendi o desespero, mas enfim.

Meu cartão passou, tudo ok. Só que sem luz todo mundo ficou cego e tentando adivinhar qual trem ia sair e se ia sair pro lugar certo. Nesse meio tempo, vi um raio cair a uns 100 ou 200 metros de onde a gente estava. E foi bonito e tenso - tenso porque era mesmo muito muito perto. Alguns minutos depois de tentar adivinhar, decidimos arriscar. E ainda minutos depois de arriscarmos, descobrimos que o trem era o certo.

E viemos pra casa. O resto é resto, mas eu precisava registrar o fato de que o dia tinha tudo pra dar errado, mas acabou dando certo. Além disso, recebi hoje a segunda parcela do décimo terceiro, e, depois de quatro meses, acho que finalmente encerrarei o mês com algum dinheiro, ao invés de terminar devendo duzentos reais. Yeah! \o/

E é isso, fim do dia.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

semântica

Não me conformo com a idéia de deixarem marcas em mim, tampouco com a idéia de marcar alguém. Não sei de nenhuma marca que não tenha sido deixada sem dor, não sei de nenhuma cicatriz que não se tenha conseguido sem sentir o corte. A moeda de troca da felicidade não tem que ser isso, não tem que ser uma tristeza, uma mágoa, e não há quem me convença disso, nem ele. Não acredito que a felicidade necessite estar intrinsecamente ligada a qualquer sentimento doloroso. De verdade, de verdade, não acredito mesmo. Acho que tem de haver outro jeito, tem de haver outra metáfora, uma outra palavra. Não quero ser uma marca, um hematoma, ou uma cicatriz. Isso é coisa pra gado e mulher de malandro.

Taí.


Acho que quero ser uma tatuagem.





(por favor, por favor, me deixe ser uma tatuagem!
o desenho que você quiser, pra sempre).


segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

trançado em azul-petróleo

Fecho os olhos pra ouvir a  voz dela e me sinto em paz. É como se todo o resto fosse desaparecendo à minha volta, como se de repente, por algum tipo de milagre ou compaixão divina, não houvesse mais dor ou mágoa. Fecho os olhos pra ouvir a voz dela e me permito fingir sentir agora o que sentia por ela em outra época, numa tentativa desesperada de tirá-lo de dentro de mim - e eu consigo por alguns instantes. Algo no fundo da minha mente me aponta a ironia da situação. Algo no fundo da minha mente me diz que isso não é saudável. Mas eu não me importo. Fecho os olhos pra ouvir a voz dela e me sinto em paz - eu não estou apaixonada; mas poderia estar.


sábado, 12 de dezembro de 2009

pra quando lembrar for uma tarefa difícil

Ver o L. recitando Mar Português e descobrindo a licença poética "Ó mar muito muito salgado", os garotos agitando as ondas de mentira na direção dele, engolindo-o com os lençóis azuis enquanto a Margarida gritava e esbravejava dizendo que éramos a pior turma de Literatura que já havia pisado naquela escola.

A casa da Su depois da minha aula. Ela descendo pra escola, que ficava ao lado do seu prédio, a mãe e o padrasto trabalhando, e eu dormindo na cama dela, esperando chegar o momento de vê-los de novo quando o sinal batesse às 16:10.

E todo o resto. Todas as tardes daquele ano.

Sacolés de amendoim com chocolate na Penedo, a subida do Sufoco (onde a Ministro se encontra com a Gomensoro) no dia de São Cosme e Damião, verdade ou consequência depois da aula, "Miojo encolhe quando quebra?", O Navio Fantasma, três cortes e um beijo na Comandante Coimbra, o piercing na língua, guerra d'água na Conselheiro Paulino, madeira em flor, subidas por ruas sem nome e muitas escadas em direção à Baiana, todos os pássaros, as lentes de contato, e a mão cinematográfica da Lu, chuviscos caindo sobre o corpo jogado na Vandenkolk, dança dança dança, gosto de coisa gozada na boca, Atenas e Portugal, varanda do prédio, a quadra da escola, declaração na Paranapanema, a gente cantando Por Enquanto, a quadra do Lígia, a Coca-Cola, o meio-fio, e os gravetos da Major, as histórias da minha vida, e a certeza de que houve uma época em que eu não precisava correr atrás da felicidade, tão ansiosa, tão angustiada, tão desesperada; ela vinha até mim como se fosse destino. Era fácil, e era bom. Eu sempre soube.


quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

elephant gun

O pôr-do-sol, o Arpoador, os olhos de Capitu, todos os cartões-postais do Rio de Janeiro numa noite de terça-feira, "eu vou acabar sumindo da tua vida", "não é como se eu tivesse mentido pra estar aqui", lembranças de uma tarde de Agosto, lua crescente e praia iluminada, a não-vontade de ir pra casa, a constelação de Orion reconhecida, a sensação de como era bom estar ali.


"Não posso mais continuar falando contigo sem fazer isso..."








Mas hoje choveu o dia inteiro.



segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

é só mais um caso de coração partido

Estava descendo a rua, a nota de cinco reais sendo torcida pelos meus dedos, e um número razoável de pessoas cochichando sobre "o que aconteceu no Real Grandeza". Dei uma olhada na direção do edifício, vi uma ambulância e mais um monte de pessoas curiosas em volta. Parei no bar do Índio, pedi uma Coca-Cola de 2,75l, e perguntei o que estava acontecendo lá. O rapaz que me atendeu disse que a movimentação toda era por causa de uma garota que havia tentado se matar. Ele disse assim mesmo "ela tentou se matar". Sem eufemismos, sem palavras difíceis. Eu pisquei duas vezes e respondi com um "ah", como se entendesse. Ele me entregou a Coca, eu entreguei o dinheiro, e esperei meus cinquenta centavos de troco.

"Você sabe quem era a menina?", perguntei, tornando a olhar para o edifício, para a ambulância e para as pessoas. Ele disse que o nome dela era Ana Clara e que ela morava no décimo primeiro andar. Perguntei como ele sabia, e ele deu de ombros, "sei lá, todo mundo tá falando disso, ouvi dizer". "Mas você disse que o nome dela era... Então ela morreu mesmo, não foi só tentativa?". Ele deu de ombros de novo e me deu as costas. "Eu estou esperando o troco, os meus cinquenta centavos", falei. Ele voltou até o balcão e deixou a moeda lá, sem dizer palavra, e novamente as costas dele. Fiquei olhando a moeda, o Real Grandeza, e toda aquela gente. Pisquei duas vezes antes de pegar o dinheiro, o refrigerante, e ir pra casa.

x

Estava sentada numa das mesinhas de pedra da praça, os pés sobre o que deveria ser o banco, e um livro sobre meus joelhos. É engraçado, mas não sei dizer do que se tratava o livro, ou qual era o título dele. Sei apenas que lia, e que lia concentrada, até que ela parou do meu lado - uma garota de shorts jeans, camiseta regata branca, um all star preto e velho, e cabelos castanhos até a cintura. 

Ela não disse oi, não se apresentou, não perguntou como eu estava nem me pediu licença. Ela só parou do meu lado, corpo apoiado na mesa e cabeça baixa. Levou uns dez segundos até que falasse, e quando falou foi pra dizer que não adiantava eu ficar lendo aquele livro. Eu levantei a cabeça e dei uma boa olhada nela. Não lembro de ter sentido raiva, não lembro de ter sentido algum incômodo real, mas perguntei por que ela estava fazendo aquilo. Ela deu de ombros. "Sabe quando você acorda e percebe que a vida é boa?", ela perguntou, e eu rapidamente fiz que sim com a cabeça. "Fazia tempo que a minha vida não era boa", ela continuou,  "E então, um dia, eu resolvi não acordar". Eu arregalei os olhos; comecei com um "mas...", e ela sorriu um riso tão bonito que eu fiquei sem graça de continuar. Ela sorriu de novo, fez um carinho na minha cabeça, "Quer saber? Continua lendo. Talvez você goste do final", e deu uma piscadela pra mim, antes de ir embora - senti saudades dela no exato momento em que desapareceu da minha vista.

x

Eu estava sentada na calçada.

"Ei, Luan, o que aconteceu no Real Grandeza?"

Luan morava no edifício do bloco vizinho.

"Tu ficou sabendo? A Aninha, cara... Chegou em casa, da escola, com uma caixa de veneno pra rato - clichê, até. Tomou tudo. Não era muito minha amiga, mas fazia parte do nosso grupo. Bizarro. A mãe dela surtou".

"Mas sem motivo?"

Deu de ombros. "Tá todo mundo comentando. Será mesmo que alguém pode se sentir tão infeliz a ponto de fazer uma coisa dessas, cara? Tá todo mundo comentando... Alguns dizem que era só pra aparecer um pouco, mas que acabou dando errado - o que eu duvido muito, a Aninha não era disso. Outros dizem que ela sempre foi mesmo muito estranha, mas sei lá, eu discordo, a garota parecia bem normal, pra mim. E há quem diga que é só mais um caso de coração partido, o que faria sentido se o rolo dela não tivesse acabado há tanto tempo - e ela estava realmente bem, de uns dois meses pra cá..."

Eu não falei, só fiquei olhando pra ele.

"Sei lá, é bizarro. Fiquei sabendo que ela não deixou nem uma carta explicando aos pais. Que ela só... foi".

x

Estava sentada numa das mesinhas da praça, só que agora eu não era eu e via a cena de fora. Também não tinha nenhum livro sobre meus joelhos, nem ela do meu lado. Tinha só um papel meio amassado que eu estava segurando, mas que eu sabia, que eu tinha certeza, que era dela. De longe, eu me vi chorando e rindo, meio louca, com aquele pedaço de papel nas mãos. Não fazia ideia do que estava escrito, mas reconhecia a sensação de compreensão se espalhando por cada célula do meu corpo.

Não parei de rir nem chorar. Não sei o que estava escrito no papel. As saudades dela aumentaram.

x

"Fiquei sabendo de você enquanto comprava um refrigerante. Não te conheci, não conheci sua família, e de todos os seus amigos eu só conheço o Luan, e porque ele estuda comigo, e ele nem era tão próximo de você assim. Não entendo o porquê de você ter feito o que fez, desconheço completamente os seus motivos, e tudo o que eu tenho é tudo o que todo mundo tem de você, já que você não deixou nenhuma pista, absolutamente nenhuma pista do que você sentia ou pensava. Pelo que eu vi, todo mundo achava e acreditava que você era feliz. E às vezes eu me pergunto se você mesma não tinha essa consciência, sabe? Eu vi umas fotos suas, no seu orkut e no orkut dos seus amigos. Seu sorriso era bem bonito, e os cantos dos seus olhos pareciam acompanhar cada riso que você dava. Você conhecia bastante gente, tinha bastante depoimento, tinha fotos de lugares incríveis e parecia ter histórias incríveis. Você escrevia tudo muito certinho e direitinho na internet, e participava de comunidades cretinas, geniais e interessantes. Sim, eu te stalkeei, mas só porque eu queria entender. Queria ver se havia alguma pista, se havia alguma coisa que todo mundo perdeu, se havia qualquer coisa. De repente me ocorreu que talvez nem você soubesse que ia morrer. De repente me ocorreu que nem você esperava por isso, mas que entendeu que talvez devesse acontecer. Eu não sei. Eu leio seu perfil, eu revejo seus álbuns, eu leio seu antigo blog, e eu simplesmente não sei. Eu tenho sonhado com uma menina que não parece muito com você, exceto pelos cabelos, mas que eu acho e tenho certeza de que é você. Não sei mesmo por que você faria isso, por que você fez isso. Pensei no que o Luan disse, e cheguei à conclusão de que talvez pudesse mesmo ter sido por causa de coração partido, mas não desse jeito, não por causa de um cara. É como quando a gente deixa um copo escorregar, por acidente, e ele acaba se espatifando no chão. Talvez tenha acontecido o mesmo contigo. Talvez você nem tenha entendido direito como ou quando ou por que o seu coração quebrou. Mas aí, quando você percebeu, quando você se deu conta disso, você morreu. E eu sinto muito. Eu sinto muito por isso. Eu sinto muito por tudo".


sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

aquilo que eu faço quando não estou aqui

Tenho trabalhado trabalhado trabalhado e ido à academia. Pois é, eu e academia na mesma frase e num sentido positivo. Agora estou indo direitinho, vou sempre depois do trabalho, e saio de lá às 20h. Tem sido divertido, costumo ir com minha mais-ou-menos chefe, e com o pessoal que trabalhava comigo no callcenter. Descobri que spinning é uma atividade cruel, e que morro de medo de correr na esteira e ficar caindo que nem em The Sims - mas eu tenho que correr, não dá pra continuar só caminhando na velocidade que eu estou caminhando. Enfim. É um dos motivos pra eu chegar em casa morta o suficiente pra só tomar banho, comer alguma coisa, jogar Colheita Feliz/Joga Craque rapidinho, e então ir dormir - especialmente porque meu computador já está nas últimas, e não tenho conseguido ficar muito tempo nele sem me irritar.

Acho que não tenho escrito muito por causa disso. Por causa disso, e porque ando mesmo sem muita vontade de falar ou de conversar direito. Falo só de trabalho porque não sinto muita vontade de falar sobre o resto. Ando preferindo ficar em casa vendo um filme sozinha, ou então lendo um livro, ou então ficar deitada no sofá ouvindo músicas que ouvia dois anos atrás. Confesso que sinto falta das coisas que eu fazia antes de entrar de férias. É engraçado e estranho o quanto algumas coisas mudaram depois das férias - e não necessariamente por causa delas. São outros hábitos, são outras situações. Mas ainda sinto falta de antes, em muitos aspectos. E um deles está no fato de sair, de passear, de querer ver coisas bonitas e de buscar coisas bonitas pra ver e de encontrar essas coisas bonitas. Eu sinto falta de ter alguém comigo pra dizer "vamos" depois de eu perguntar.

Trabalhando, malhando, e reaprendendo a ficar sozinha.

Ainda não sei se e o quanto isso tudo é bom.


quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

coisas que você não vai ler

Eu não achei que fosse passar logo, mas eu quis muito. Chorei algumas noites por tua causa, e depois de uma noite em especial decidi que não choraria mais. Cumpri minha palavra durante dois meses, até que ontem veio a recaída. E  foi meio patético chorar no banheiro da academia só porque a gente não pegaria o ônibus juntos naquele dia, como um ano atrás. Eu fiquei lembrando do que você disse naquela noite em que acabou-acabou - antes mesmo de saber que ia acabar-acabar -, que sempre haveria o 711 pra gente - e não, não houve.

Sinto sua falta todos os dias. Às vezes penso que você é pra mim como um tumor - eu sabia viver antes de você e vivia bem; eu estou vivendo depois de você e vivendo bem. Mas agora eu estou com aquela cicatriz enorme do buraco que sempre fica quando os cirurgiões têm que tirar a parte estragada do corpo. E conforme o tempo passa e você não, fico achando que você é um daqueles recessivos malignos, que acabam fazendo as pessoas morrerem aos poucos não importa o quanto elas se recuperem e tenham momentos como se nunca tivesse existido um tumor.

A gente não se fala mais como antigamente, como quando éramos amigos. A gente não se fala mais, e toda vez que eu te vejo é como se eu subisse cinco lances de escadas sem parar. A gente não se fala mais, e eu fico inventando conversas que a gente poderia ter tido, quando eu não consigo lembrar direito das conversas que a gente teve - e elas sempre parecem de verdade. A gente não se fala mais, e eu fico cada vez mais chateada quando passo do teu lado, segurando o passo, e tu não para como antigamente pra conversar, e diz só "bom dia" ou "oi" como se a gente não se conhecesse o que a gente se conhece. Sério, isso me mata cada vez que acontece e você sabe que acontece com uma certa frequência.

Eu devia era superar isso e  seguir em frente. Como tu disse que estava fazendo comigo, como eles fizeram em Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças. É o discurso dos amigos, será o discurso de qualquer pessoa que ouça a história ou a leia aqui. Seguir em frente, continuar, se reerguer e todas essas coisas bonitas e gloriosas que todo mundo espera, que todo mundo quer que alguém nessa situação faça, que todo mundo deseja, porque querem te ver feliz e mais ainda porque estão de saco cheio de tever na fossa - ninguém gosta de companhias tristes. E porque sofrer por amor é old school e ninguém realmente quer morrer de e por amor, como Romeu e Julieta, como qualquer outra história nessa linha. O romantismo passou. E eu queria muito que você passasse também.

Quanto tempo vai levar até eu deixar de te amar assim, desse jeito, hein?
Quanto tempo?

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

damned if you don't

A gente nunca pensa que a nossa vida vai se encaixar numa música do Forfun ou do Lulu Santos. Não sei por que isso acontece. Talvez acreditemos que apenas Freddy Mercury, Renato Russo, e Ben Gibbard são dignos de contar a nossa história ou o que passa pela nossa cabeça. E o resto é resto. Meio idiota, meio brega, meio antiquado.

Naquela noite o couvert artístico tocava Tempos Modernos, e o refrão nos pedia pra viver tudo o houvesse pra viver. Dizia que devíamos nos permitir.

Eu lembrei disso durante o almoço, enquanto ele tamborilava os dedos sobre a mesa, as costas viradas pra mim, e uma risada despreocupada. Lembrei das coisas que a gente fazia no breu do cinema e nas coisas que ele dizia ao pé do meu ouvido. E lembrei daquela noite no ônibus, em que nos encontramos por acaso depois de Tempos Modernos. Naquela época pensei que talvez fosse uma dica, hoje não sei. Posso encarar como sinal, mas também posso encarar como uma dessas coincidências engraçadas que a gente vive uma hora ou outra. O horário de almoço acabou, e voz dele continuou no meu ouvido, mesmo depois de vê-los saindo juntos do prédio.

Acho que minha vida está longe de ser um musical da Broadway, sucesso de bilheterias. Está longe de ser uma tocante tragédia do Death Cab For Cutie, longe de ser uma lendária canção do Queen, longe de ser um relato épico cantado pelo Legião Urbana. Minha vida é como todas as outras músicas que você menospreza, meio idiota, meio brega, meio antiquada. E o resto é resto. Um dia ela pode ser bonita também.


sábado, 21 de novembro de 2009

e por trás da madeira, repito e repito que tudo vai bem, tudo continua bem, tudo muito bem, tudo bem.

Quando comecei esse blog, tinha uma proposta em mente e sempre achei que ela tivesse a ver com as brainstorms, com o direito, e finalmente com todos os meus tijolos amarelos. Acontece que as coisas foram mudando de rumo, e de repente tudo o que eu postava era sobre um monte de coisas que eu não conseguia falar com os outros e por isso resolvia falar aqui. Com o tempo, ficou intimista demais, ficou pesado demais.

Quando comecei esse blog, a intenção era fazer dele uma boa viagem, uma viagem agradável e leve, divertida, em busca da minha casa, da minha felicidade, do meu destino ou o que fosse. E olhando agora, sei lá, vejo que ele ficou diferente do que imaginei, mas nem por isso eu desgosto dele. Pelo contrário. Às vezes gosto de reler e pensar diferente. Às vezes gosto de reler e ver que penso igual. E me dá uma sensação boa ver que, a despeito de tudo o que eu esperava do skip intro e acabou não acontecendo, ele foi algo que eu comecei no início desse ano e consegui manter - eu, que sempre vou embora, mais cedo ou mais tarde; eu, que sempre desisto.

Não importa tudo o que eu tenha abandonado em 2009, eu continuei escrevendo. Eu continuei aqui. Eu continuei e ponto, como um presente a Caio.

"(...) que aconteça alguma coisa bem bonita com você, ela diz, te desejo uma fé enorme, em qualquer coisa, não importa o quê, como aquela fé que a gente teve um dia, me deseja também uma coisa bem bonita, uma coisa qualquer maravilhosa, que me faça acreditar em tudo de novo, que nos faça acreditar em tudo outra vez, que leve para longe da minha boca este gosto podre de fracasso, este travo de derrota sem nobreza (...)".




quinta-feira, 19 de novembro de 2009

toggle playlist shuffling



we spent some time together walking
spent some time just talking
about who we were
you held my hand so very tightly
and told me what we could be dreaming of

there's nothing like you and i

we spent some time together drinking
spent some time just thinking
about days of joy
as our hearts started beating faster
i recalled your laughter from long ago




there's nothing like you and i





terça-feira, 17 de novembro de 2009

antes que dê meia-noite

Eu preciso dizer que estou passando por um daqueles momentos em que eu realmente acredito que tudo vai ficar bem e que todas as coisas darão certo e que eu serei feliz e viverei uma série, um livro, uma vida de coisas boas. Eu também preciso dizer que sei que, pouco depois, a bad trip virá, e que eu vou pensar em todos os motivos para querer encontrar caminhões, que eu vou querer desaparecer da face da Terra, e que eu vou querer chorar a noite inteira sem conseguir, e eu terei pesadelos que me deixarão aterrorizada durante todo o dia.


Na próxima bad, eu só quero um pouco mais de fôlego pra lidar com as brainstorms da vez. Por enquanto, eu só quero curtir a sensação de que serei feliz pra sempre, enquanto descanso a cabeça no travesseiro e...

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

retrospecto

Não acontece todo dia, mas acontece com uma certa frequência: eu fico lembrando. Pensar nele ainda é reflexo diário, reflexo de hora em hora, quase que de minuto em minuto. E levando em consideração o fato de que a gente trabalha no mesmo prédio, almoça no mesmo horário, e (teoricamente) pega o mesmo ônibus, não é algo que eu possa realmente evitar. Pensar nele, só na imagem, às vezes na voz, evitar pensar no resto. Mas aí acontece de eu lembrar e ficar lembrando, assim mesmo, no gerúndio, sem ser um dos reflexos, mas sim algo que dura mais que três segundos e me deixa zonza de novo. Eu fico lembrando, eu fico pensando se fui realmente tão escrota como parece que fui.

Ele disse que gostava de mim. Ele disse que me amava. Ele disse que precisava fazer isso sumir, desaparecer, por causa do que tinha acontecido antes entre a gente.

Lembro disso sempre que o vejo - não necessariamente quando penso nele -, porque ele sempre me parece diferente, talvez mais feliz agora. E eu fico pensando se realmente fui o motivo de tristeza dele, se realmente o magoei assim, de um jeito tão profundo que o fez ficar com medo - e ele disse que sentia medo. Ele disse isso até o fim.

Eu fico horrorizada quando penso que posso tê-lo machucado dessa forma. Eu fico horrorizada porque, no fundo, naquela época, eu fazia coisas que eu sabia que o magoariam - embora não soubesse o motivo disso, de eu fazer. Eu costumava dizer pra mim mesma que seria melhor se ele descobrisse que eu não era garota pra ele, que a gente não daria certo - e o curioso é que eu sempre achei que a gente daria certo. Eu costumava dizer pra mim mesma que ele não devia estar fazendo aquilo, que era absurdo ele dizer todas aquelas coisas boas e bonitas sobre mim, que parecia errado, que era errado.

Eu surtei quando ele me deu um presente. Surtei mesmo, da minha voz ir ficando cada vez mais histérica, cada vez mais aguda, e eu tinha gostado!, mas não sabia por que continuava falando rápido e sem parar que ele era louco de me presentear, e que não precisava, e que eu me sentia culpada, que eu tinha adorado mas que ele não devia... Eu avisei desde o início que eu poderia sumir. O problema não foi ele. O problema estava comigo, estava no fato de eu me achar pequena, inferior e não merecedora - dos presentes dele, do carinho dele, da felicidade que eu sentia quando estava com ele e que ele me proporcionava, de tudo.

Se a vida não fizer a gente se cruzar de novo, se a vida não fizer a gente ficar junto de novo - como nos filmes, como nos livros, como nos meus sonhos dos últimos meses -, então acho que ele veio pra mim pra que eu entendesse, pra que eu descobrisse que apesar de tudo o que eu penso sobre mim, apesar de eu estar certa tantas vezes, eu sempre estive errada sobre as coisas mais importantes.

Agora eu entendo tudo o que ele falou ao longo dos oito meses que ficamos juntos, sobre eu ser especial. Ele foi meu anjo, minha alma gêmea, e você pode inserir aqui qualquer equivalente clichê, melodramático e brega, que vai ser verdade. E eu vou tentar lembrar disso, e só disso, quando eu pensar nele de novo - porque eu vou pensar nele de novo. E vou tentar lembrar disso depois, quando eu deixar de pensar nele - e isso vai ser ainda mais difícil, mas não impossível.

Sou grata por tudo. Ele sabe disso.
Espero realmente não tê-lo magoado muito.

domingo, 15 de novembro de 2009

the illusionists

Pareciam namoradas quando andavam pelas ruas de mãos dadas ou abraçadas. Pareciam namoradas quando davam selinhos em público, rindo das fantasias alheias. Pareciam namoradas quando uma deixava a cabeça descansar no vão do pescoço da outra. Pareciam namoradas quando os dedos entrelaçavam, quando os abraços se demoravam, quando os beijos no rosto duravam mais que dois segundos e se repetiam, e quando diziam "eu te amo, eu te amo, eu te amo". Pareciam namoradas quando faziam planos de morarem juntas, quando tiravam fotos; pareciam namoradas quando se divertiam com os carinhos maliciosos que trocavam na frente dos outros, apenas pra desafiar e instigar. Pareciam namoradas quando dançavam juntas, quando se insinuavam. Pareciam namoradas quando trocavam aqueles olhares de entendimento, aqueles risos de "como eu estou feliz por você estar aqui", quando ficavam em silêncio e apenas sabiam o que se passava na cabeça uma da outra. Pareciam namoradas o tempo todo, todo o tempo, quando na verdade não eram mais que boas amigas de tempos antigos. Pareciam namoradas quando tudo não passava apenas de muita intimidade. Pareciam namoradas. Não eram namoradas. E também nunca se importaram em parecer.

domingo, 8 de novembro de 2009

divã

De repente eu me vi aceitando o convite pra dormir na casa dela, e lembrei que um ano atrás eu estava fazendo exatamente a mesma coisa. A gente riu um bocado disso. A gente chegou na casa dela tão cedo quanto antes, perto da meia-noite. A gente conversou durante toda a madrugada. A gente foi tomar banho eram quatro da manhã. A gente viu o sol nascer enquanto ríamos de coisas que perderam o sentido assim que deitamos a cabeça nos travesseiros.

E de repente tudo ficou bem. As duas continuam com seus complexos, as duas continuam com seus romances bizarros e não-simples, as duas continuam com seus medos, as duas continuam com suas decepções. Não ficou nenhum segredo que estivesse sufocando a gente, entretanto, e de repente por isso tudo ficou tão bem.


Acho que eu só precisava contar a minha história, e então ouvir a história de alguém.




sábado, 7 de novembro de 2009

click


Eu ia fazer um post sobre todos os fantasmas dos natais passados, mas não. Hoje é aniversário da Natália, e eu não quero ter um post chato no dia do aniversário dela.





Natália é a amiga de cair na porrada por causa de uma borracha verde. Natália é a amiga de emprestar ombro pra eu chorar toda a existência por causa do carinha gosto. Natália é a amiga que eu chamava pra andar pelo bairro e pra ajudar o pessoal da tarde a matar aula. Natália é a amiga de sair pra comprar roupas comigo e não me deixar ser assaltada. Natália é a amiga vascaína que está num jogo do Flamengo e que aceita pintar os meus cabelos quando sair do Maracanã. Natália é a amiga que não tem paciência de ler, mas que pega um livro do Caio pra entender por que eu gosto tanto dele. Natália é a amiga que me faz tirar fotos dela no Arpoador com um argumento bobo, mas que me convence porque eu sei que vai ser divertido, porque a própria Natália é muito divertida.


Natália é a amiga irritante, que aparece na minha casa às 14h da tarde quando eu não estou, e fica usando meu computador, e come da minha comida, e se esparrama no meu sofá. Natália me acorda porque está fugindo da avó dela e precisa de um lugar pra ficar. Natália se preocupa demais com as coisas que eu faço, e me dá sermão, e me chama de louca com uma certa frequência, e eu sei que ela realmente teme por mim. Natália fala todas as verdades que me magoam mas que eu preciso ouvir pra cair na real. Natália erra a meu respeito um número considerável de vezes, a gente discute, a gente para de se falar, a gente volta a se falar achando que as duas foram muito idiotas, e em algum momento as duas concordam entre si. Natália conversa com meus irmãos como se fosse irmã deles, Natália critica tudo o que eu faço, eu critico tudo o que Natália faz, Natália é vaidosa e surta com roupas, sapatos, e o gloss que quebrou, Natália senta comigo na cama do meu quarto e me conta sobre toda a parte da sua vida em que a gente não se viu.


Natália está de aniversário hoje, e eu desejo muito muito muito que ela seja feliz - porque apesar de Natália fazer muitas graças quando está triste, e apesar de eu gostar dela mesmo quando ela fica histérica e quer chorar e fica doente e de mau-humor, Natália é muito mais engraçada e bonita e legal quando está feliz. E eu sou tão grata à Natália por todas as coisas que ela me faz, que desejar felicidade pra ela não só parece certo, como parece justo, como é um desejo sincero. Acho que Natália merece. Por tudo o que ela já passou e que não cabe aqui.


Natália é minha amiga de seis anos que parece minha irmã chata e querida ao mesmo tempo. Felicidades pra você, flor, que vai ler isso aqui uma hora ou outra ♥


sexta-feira, 6 de novembro de 2009

do barulho das fichas

Tem coisas que a gente só percebe e entende depois de muito tempo, enquanto ouve uma música da bandinha da vez. E soa irônico, e soa triste, e tem uma pontada de remorso, porque não se tratava apenas de fazer sorrir - tinha a ver é com fazer feliz.


segunda-feira, 2 de novembro de 2009

postsecret

# tem gente que acha bonito esse meu traço de ficar vendo coisas boas e bonitas nas pessoas. e eu também acho, quando não estou sendo decepcionada por elas. mas acontece com qualquer um.

# era uma das poucas coisas que acreditava ser pra sempre. algo que aconteceu de maneira tão aleatória e tão contra todas as expectativas só poderia ou dar muito certo, ou muito errado, e como estava dando certo até aquele momento, achei que isso nunca mudaria. mas eu sou ingênua, sempre fui. as coisas parecem estar desmoronando, e parece mesmo que não tem volta. mas a parte mais estranha é não ter mais certeza se vou sentir falta disso tudo.

# quando eu pensava em me matar, tinha medo de tentar e então sobreviver. eu pensava que me sentiria completamente inútil se falhasse nisso de maneira tão miserável. quão patético isso pode soar?

# tem uma coisa em mim de sempre ceder. a vez, a palavra, um show, um livro, uma idéia. tem uma coisa em mim de sempre tentar conhecer, de sempre tentar entender, de sempre parar e pensar "talvez não seja tão ruim, por que não?". é uma coisa legal. é uma coisa legal pra quem não espera reciprocidade - e eu espero sempre. my bad.

# quando olho pra essa minha amiga e penso que não consigo mais conversar com ela direito, é porque cinco meses atrás ela pediu que eu não contasse aos outros o quanto ela estava magoada, e o motivo de estar magoada. ela não queria que fossem até ela por minha causa ou por simples pena. ela queria que fossem até ela por se importarem, por real interesse no que ela estaria sentindo. mas eles nunca foram. e eu sinto vergonha por eles, e eu penso sempre em pedir desculpas que não são minhas.


nineteen candles

A gente se conhece desde pequenas. Desde a praça do bairro, desde o balanço, desde o escorrega e da gangorra. A gente se conhece desde tenra infância, mas a amizade começou lá pelos onze ou doze anos, quando ela voltou a morar aqui. Quase não fui ao aniversário dela por falta de grana, mas que bom que o pai pagou essa pra mim - e que bom que a mãe dela falou com o pai que gostaria muito que eu estivesse lá.

Eu só senti falta dos nossos outros amigos. Eles não foram ao restaurante, e até aí é compreensível, porque primeiro dia do mês ninguém tem muita grana mesmo. Só que o que me deixou meio decepcionada foi não ver ninguém depois, mais tarde, na casa dela. Lembrei dos anos anteriores, do pequeno apartamento abarrotado de gente, mais de vinte pessoas amontoadas num cômodo, jogados na cama, tirando fotos aleatórias e rindo e cantando e sendo retardadamente felizes.

Sei lá, me deu um aperto no peito, uma saudade tão grande! Não quis tentar identificar onde estava o ponto exato da ruptura. E eu olhei pra ela, tão linda, a época mais linda da vida dela, e pensei em como era triste que os amigos dela - os nossos amigos - não estivessem ali pra ver aquilo também. Acho que ela não estava feliz como poderia e queria estar. Eu a conheço desde a tenra infância e somos amigas desde os onze ou doze anos. Dava pra ver. Eu sabia que ela não estava feliz como poderia e queria estar.

Quando ela soprou a vela, talvez tivesse pedido todos eles de volta. E ainda que não tenha pedido, sei que eu acabei desejando isso. E pensei algo que eu não devia pensar, porque simplesmente não é algo para se pensar quando se trata de amigos assim, mas eu quis muito estar ao lado dela enquanto ela soprasse velas de aniversário. Por tudo, cara, por tudo. E eu vou estar, é uma promessa.


quinta-feira, 29 de outubro de 2009

a noite estrelada


Bonita noite, eu pensei, o céu salpicado de pontinhos brilhantes, de pequenos pontinhos brilhantes que a gente costuma chamar estrelas. E o short dela sujo de cal. O short dela sempre ficava sujo de cal, quando a gente sentava, como naquela noite, na calçada. E quanto mais sujo ficava, mais eu reparava. Ou talvez esse nem fosse o caso de verdade, talvez eu reparasse sempre, sempre dada a detalhes dos mais desimportantes em relação às pessoas. E especialmente em relação a ela, passei a notar.

Bonita noite, comentei, e ela acenou a cabeça sem dizer nada, pensativa. E era sempre assim, constatei. Ela pensando em algo, eu pensando no que ela poderia estar pensando. Mas talvez não. Não, no começo não era assim. No começo eu já era aérea, mas não por causa dela, e sim por causa de tudo, do mundo, dos outros, de mim mesma. Não havia alguém específico, não havia nada específico, só havia uma divagação meio que sem trilhos. E então ela. Ela sentada do meu lado na calçada, numa noite bonita, numa noite de chuva fininha, numa noite nublada, numa noite estrelada. Ela com seus shorts sempre sujos de cal, eu reparava. E aí o frio. Na espinha, na nuca, na barriga, quando ela inconscientemente chega mais perto por causa do frio.

Como é que 'cê tá?, eu perguntei. Ela disse que não sabia, que não sabia de mais nada, e eu acreditei. Acreditei porque entendia, talvez mais do que ela mesma, sobre essas coisas de não saber. Ela disse que sentia vontade de sumir, feito fumaça, feito nota de música, feito palavra, mas sem chance de se reproduzir ou de ser reproduzida por outras pessoas. Sumir, só. E eu perguntei rindo o que seria da minha vida sem você? Ela riu e respondeu o que seria da minha vida sem você. Sorri, mexi nos seus cabelos e falei a verdade, que queria saber tirar tudo isso de dentro dela, mas que não sabia como. Riu de mim, riu de si mesma, riu de tudo e disse gata, acho que estamos na mesma merda. Deitou no meu colo, se acomodou, se perdeu no céu.

Bonita noite, comentou, pela primeira vez prestando atenção. O céu salpicado de pontinhos brilhantes, de pequenos pontinhos brilhantes que a gente costuma chamar estrelas. E eu a beijei. Ela retribuiu. Foi um beijo suave, tão macio!, e mais forte que eu - muito, muito mais forte que eu. A gente se separou, os olhos arregalados, a vontade de fazer de novo. Fizemos de novo. E lá dentro, lá no fundo da minha mente, não pude deixar de pensar gata, acho que estamos mesmo na mesma merda.

Mas a noite estrelada estava bonita. E o short dela sujo de cal.

07/07/2009

i wish i was special, so very special

Mas eu sou só a porra de uma garota carente, insegura e egoísta, que não consegue levar nada muito a sério, e que não raro tende a afundar em um poço de auto comiseração e pensamentos demasiadamente mórbidos e clichês. Pateticamente antiquada. Mediana. Sem qualquer perspectiva de vida, de um futuro, de qualquer coisa. Que pensa na própria morte mais vezes que pode contar, embora não queira de fato morrer - mas isso, talvez, porque não consegue pensar em nenhuma morte sem dor. Que fez o irmão jurar que seria "cremada, não enterrada" - ainda que ele estivesse mentindo - pra não ter que viver e conviver com a idéia de ter seu corpo apodrecendo debaixo da terra, unhas e cabelos crescendo sem parar, e um bando de vermes dilacerando seu corpo depois de morta. Que não consegue entrar num metrô sem pensar que seu vagão vai descarrilar, que não consegue andar na rua sem pensar que pode ser estuprada, assassinada, ou qualquer outro tipo de atrocidade que sua mente é capaz de forjar. Com mais neuroses e idéias nocivas do que se pode contar - e que também não faz muita questão de contar, na realidade. Com pesadelos de câncer e doenças terminais e aleatórias que poderiam ser facilmente explicadas pela Wikipédia. Com skills elevados no quesito auto depreciação.Sem nenhuma esperança. Só a porra de uma garota carente, insegura e egoísta, com uma vontade infinita de não acordar amanhã.




terça-feira, 27 de outubro de 2009

a última página do livro

Menininha, vou tratar você com intimidade, é mais fácil para mim. Só queria lhe dizer que fiquei um pouco emocionado com a conversa de outro dia. Você é uma garotinha legal.
Não quero mais brigar com você. Azar o meu se às vezes fico um pouco triste. Você tem razão em tantas coisas... Sem dúvida eu lhe farei mais mal do que bem. Sem dúvida, não, mas talvez.
Então eu tomei grandes decisões, e você pode tornar a me ver. Sou seu amigo.


A.


Claro que a menor primavera enfraqueceria minhas decisões - mas azar se não há mais primavera.

Lettres à l'inconnue, Antoine de Saint-Exupéry       

samson

Diego Caeris tinha um dos cabelos mais bonitos que já vi na vida e, de tempos em tempos, passava máquina um neles. Quando ele aparecia praticamente careca, as meninas tinham ganas de matá-lo da pior maneira possível, mas era só ele abrir aquele sorriso de covinhas e usar qualquer desculpa digna de Caeris, que todas eram só risinhos pra ele de novo.

Caeris nem era bonito assim. Garoto normal, do tipo magrelo e alto, olhos castanhos claros que nem os cabelos. Mas se vestia bem, até; uns jeans legais, uns sapatos legais, umas blusas legais. E era inteligente, aquele puto. Adorava sacanear, adorava rir, adorava matar as aulas da tarde da faculdade. Participava de umas corridas de kart de vez em quando - quando a grana do emprego meio expediente sobrava -, e às vezes fumava um pouco, quando ia a shows ou quando desse vontade.

Lembro que teve um dia em que a gente combinou de jogar buraco na casa dele. Marcamos às 23h, mas eu cheguei às 20h. Ficamos sentados no telhado esperando o resto do pessoal, e ele disse que ia me ensinar a fumar. Era engraçado, mas o Caeris tava sempre me ensinando alguma coisa diferente, fosse um jogo de baralho, fosse a letra de uma música, fosse um novo livro. E naquela noite ele cismou que ia me ensinar a fumar. Bem, não deu muito certo. Ele segurou meu pulso, me ensinou a segurar o cigarro, falou um monte sobre respiração e sobre como tragar, mas naquela noite não deu. Eu não aprendi a fumar, e ele fingiu frustração dizendo que eu devia ter algum defeito de fabricação por não aprender algo tão simples. A gente riu. Ele era um retardado. Eu disse que só aprendia as coisas com ele quando ele não estava realmente disposto a me ensinar, e acho que ele concordou.

A gente ficou em silêncio. Ele parecia pensativo demais olhando o céu, mal parecia o garoto risonho que me enchia o saco sempre que dava. Daí o Caeris esticou o braço e me puxou pra perto. Daí eu fiquei lá, a cabeça apoiada no ombro dele, e o cheiro bom que ele tinha invadindo as narinas. Pensei que curtia mesmo aquele babaca infantil, pensei que era muito fácil ficar ali daquele jeito, pensei que o Caeris era um dos meus melhores amigos e que eu devia passar mais tempo com ele de vez em quando.

Naquela noite eu nem joguei buraco. Peguei no sono lá no telhado e acabei dormindo no colo do Caeris. Quando acordei já era dia, eu estava na cama dele, e ele tava deitado no chão em cima de uns colchonetes, todo jogado e enrolado entre travesseiros e lençóis. Sorri com a cena. Ele parecia mais novo ainda daquele jeito.

Acho que deu uns três dias depois daquela noite.

E de repente ele sumiu. Aquele filho da puta era meu amigo, eu contava coisas pra ele, e de repente ele sumiu. Fico pensando se catou umas roupas, colocou tudo numa mochila grande e foi embora. Penso que seria mesmo a cara dele, mas só até o momento em que eu chego à conclusão de que ele nunca iria embora sem se despedir. Nem que fosse só pra mim, nem que fosse só um bilhetinho escrito “fui”.

Não sei, pode ser pretensão minha, mas a gente era amigo pra caralho, amigo demais pra ele ir sem falar comigo. E a gente quase ficou, naquela noite.  E pensando agora, a gente devia mesmo ter ficado naquela noite, aquele era o nosso momento... Mas não adianta mais. Tem uns sete meses que o Caeris sumiu e não deu mais notícias. Os pais dele também não sabem de nada, nem o irmão mais velho. Eles ligaram pra polícia, mas o pessoal acha que não vai dar nada, como ainda não deu, e que tudo vai ficar por isso mesmo. E eu não querendo acreditar em todas as coisas que me dizem, em todas as coisas que eu imagino que pode ter acontecido.

Porra, Caeris...

Toda noite, antes de deitar, penso que talvez ele vai bater na minha janela com aquele sorriso de covinhas e aquela cabeça raspada, mas ele nunca vem.



domingo, 25 de outubro de 2009

it's amazing where i'm standing

Sempre penso que a vida é bonita, quando vou até o Arpoador.

Ontem não cheguei a ir até a pedra, como de costume, mas fiquei um pouco em Ipanema e reparei que sobre a pedra da Gávea havia um céu lindo de baunilha. Achei uma pena não estar com a câmera para registrar, mas isso só reforçou a idéia de que a vida é mesmo bonita. A despeito de todas as outras coisas, as ruins, a vida é mesmo muito bonita.




(Acho que eu poderia me perder naquela paisagem. Penso assim porque acho mesmo que poderia me perder ali, naquela paisagem. Tanto que à noite sonhei com ela. E que o mar de repente me engolia - e ainda existia um céu de baunilha, e a vida ainda era muito bonita).


da chuva

De repente ela está na minha porta, all star nos pés e vestido na altura das coxas. Ela está toda molhada de chuva, e eu sei que não é pretexto, dá pra ouvir de lá de dentro, dá pra ver da minha janela, então ela ri aquele riso de sempre e mexe a cabeça, se achando tola, se achando tonta, se achando vários outros adjetivos bobos com a letra "t", mas eu digo que "não" sem nem pensar no que estou dizendo. Eu quero convidá-la pra entrar. Eu quero convidá-la pra muitas coisas, na verdade, mas não tenho coragem, não tenho palavras nem tenho ação, e já me disseram que se continuar assim também não terei ela.

Eu me comporto como se a gente fosse só amigas, como se a gente nunca tivesse se beijado - uma, duas, três vezes -, e mando ela entrar porque tá frio, porque ela tá molhada, porque ela tem que tirar aquela roupa e pode usar as minhas. Eu fecho a porta, ela o cumprimenta ao passar pela sala, e eu penso que não a terei de qualquer forma, porque ele é um cara legal que eu conheci por acaso e que não gosta tanto das mesmas coisas que eu, mas tem um senso de humor que sempre me alegra e um perfume que me deixa meio tonta, meio boba.

Eu o conheci há pouco mais de um mês, enquanto ela andava por aí e eu não a via mais, enquanto ela acampava, mochilava, estudava, beijava outras meninas e transava com uns conhecidos e desconhecidos nossos. Eu o conheci e a gente se beijou, a gente acabou transando num lugar público numa noite bonita, e desde então ele vem aqui em casa, conhece meus pais, e tudo está bem, até que de repente ela está na minha porta, all star nos pés, vestido na altura das coxas, e toda molhada de chuva.

Eu falei dela pra ele. Uma daquelas amizades que começam do nada, uma daquelas paixões que começam desde o primeiro momento, um daqueles casos em que se fica preso mesmo depois que se acaba, mesmo depois de um mês, mesmo depois de anos, talvez, porque a amizade tem que continuar, afinal, a amizade sempre tem que continuar. Eu nunca falei dele pra ela. Nunca falei o quanto ele me fazia rir, o quanto os braços dele eram confortáveis, o quanto ele me empolgava e me fazia querer fazer planos, mesmo com tão pouco tempo de convivência, nunca falei o quanto ele parecia ter aparecido na hora certa.

Eu chego a apresentar os dois e ambos sorriem, parece até mentira, parece até piada, os dois tão bonitos na mesma cena, dizendo prazer prazer, tudo bem?, e eu ali, completamente apaixonada por ela, completamente apaixonada por ele, completamente apaixonada, só.

Eu aviso a ele que ela vai se trocar, mas ele já sabe, então aviso que eu vou fazer companhia a ela, mas ele já sabe, e eu digo que não vou demorar, e ele diz que não tem problema nenhum, que ele entende, e então eu falo tá, e a gente sai. A gente sobe as escadas para o meu quarto enquanto ela faz piadas sobre ele e diz que está feliz por mim. Pergunta há quanto tempo, eu respondo que o tempo que ela ficou fora, e ela acena cabeça, sorri, acena a cabeça de novo e diz que foi bastante acertado, enquanto tira o tênis e o vestido na minha frente, sem qualquer aviso, e depois tira o sutiã e se joga na minha cama.

De repente eu estou na minha porta, me perguntando o que ela veio fazer aqui depois desse tempo todo, sem conseguir tirar os olhos dos olhos fechados dela, sem conseguir desviar a atenção da respiração dela, do peito subindo e descendo, das pernas, da boca, dos seios, de tudo. E então ela ri aquele riso de sempre e abre os olhos, perguntando pela roupa, que eu alcanço em três, dois, um, e entrego pra ela, que diz pra eu sentar, e eu sento sem nem pensar muito no que estou fazendo. Eu quero beijá-la agora. Eu quero muito mais que beijá-la agora, na verdade, e talvez eu tenha coragem, talvez eu não precise de palavras, só de ações, porque eu não quero nem posso me arriscar a perdê-la assim.

Eu a beijo e ela deixa. Acho que ela estava esperando isso, porque ela corresponde como se esperasse, e de repente eu sinto um alívio tão grande, uma felicidade tão grande, e eu não quero parar. Eu a beijo, ela deixa, e passa de uma, duas três vezes. Eu a beijo, ela deixa, e então começa a tirar minhas roupas, nossas mãos deslizando, escorregando, tocando seios, sexos, e a lembrança um tanto culpada de que o namorado está no andar de baixo, mas é que era ela, e ele já sabia, e talvez por isso tenha dito que não teria problema algum, que ele entendia.

De repente nós duas estamos transando na minha cama enquanto ele está no meu sofá ouvindo as músicas que eu gosto, as músicas que ele gosta, as músicas que a gente descobriu por acaso e não sabe ainda se vai gostar. Ela ri aquele riso de sempre e solta um suspiro, e me faz suspirar, e de repente tudo me faz pensar que vai ficar tudo bem, mesmo que ela vá embora no final, mesmo que... muitas coisas, muitas coisas acontecendo agora e eu não sei o que vem depois.



sábado, 24 de outubro de 2009

484 - Copacabana

"Holograma de memória. Eu estava sentada aqui, exatamente aqui".

"É que dessa janela eu vou poder ver o Cristo e pensar que a gente estava lá do outro lado e que era perfeito".



sexta-feira, 23 de outubro de 2009

about:blank

Tenho uma vida consideravelmente boa e estou insatisfeita com ela.





Sou chata, cuzona e não valorizo merda nenhuma? Beleza, então saca uma 9mm, mira bem no meio da minha testa, e faz isso parar.


segunda-feira, 19 de outubro de 2009

do sonho em sépia

"Tô melhorando, sabe. As coisas vão mudando, e eu melhorando. Eu vou esquecendo", ela diz com a cabeça baixa, queixo nos joelhos, ocupada desenhando a terra com um graveto.

"Eu só perguntei porque tu não me parece feliz".

"Sei lá, acho que o pior é isso, Gueto. É perceber todas essas coisas se desfazendo, feito castelos de areia numa ventania". Ela suspira todo o ar a volta deles "O pior, Gueto, é a percepção estranha de que eu posso viver sem isso".

"Tu preferia que fosse pra sempre?", ele questiona.

"Acho que sim. Não sei. Às vezes não...".

"Não precisa ter pressa. Vou ficar aqui a noite toda, tu sabe".

"É. Mas eu também queria explicar, dizer logo...".

"Então diz", ele sopra. Sereno.

Ela sorri.

"É que eu tenho dois medos, Gueto. Tenho medo de encontrar pessoas maravilhosas, de perdê-las, e então perceber que eu posso e consigo viver sem elas, que eu posso e consigo continuar sem elas...".

Ele espera, e o segundo vem.

"Quando esse passa, fico com medo de encontrar uma pessoa maravilhosa, de perdê-la, e então constatar que não tenho mais volta".

Ele sorri. Ele entende.

"Não precisa ser assim. Tu nunca foi dos destinos, querida. Tu sempre foi dos trajetos".

Aí ela ergue as sobrancelhas. "Ah..." Ela sorri "Enquanto todo mundo fica preso na estação, tem alguém que fica preso no trem" Ela entende.



sábado, 17 de outubro de 2009

da arte de esquecer

Ouviu da mãe meia dúzia de palavras duras e saiu de casa chorando.


Voltou quatro horas depois, trazendo abraços e flores pra ela.



sexta-feira, 16 de outubro de 2009

carta de uma desconhecida

29/09/2009


Acho que é mais um daqueles momentos em que eu volto depois de sumir. Não me admira que tu tenha sentido tanto medo, eu realmente entendo. E queria dizer que não tem raiva, nem rancor, nem nenhum sentimento ruim aqui. Tem só um espaço muito grande, na verdade, algo que eu não posso mais tocar, um vazio estranho, um prédio de dezesseis andares completamente abandonado.
Mas você entendeu o porquê de eu ter ido embora daquele jeito? Havia tanta determinação tua em me tirar do teu organismo, que continuar ali já não seria mais confortável, caso eu continuasse do teu lado. Não seria minha casa, não seria meu nono andar da UERJ, não seria minha noite no Arpoador. E eu não queria que todas as coisas boas perdessem o sentido.
Não sei, mas sempre achei que tudo começou no 711. Não foi naquela noite de dezembro, mas sim antes, no ônibus, enquanto falávamos sobre comidas, política, e videogames. Alguns amigos disseram que eu teria que esquecer e superar, mas parece tudo tão entranhado, nossa amizade e o que veio depois, que separar me soa até sacrilégio, heresia. Em contrapartida, eu não poderia nem gostaria de te atrapalhar, me tornar um estorvo.
Eu fiquei sem saída. Tive duas opções, e nenhuma delas era sequer razoável pra mim. Uma delas consistia em te ver indo embora de longe, sem poder me despedir; e a outra consistia em estar ao teu lado, sim, mas arrumando todos os preparativos pra tu me deixar. Dos males eu escolhi o menos pior, que era não fazer parte disso - eu já havia saltado do prédio, não queria pensar que tinha me jogado com os pulsos já cortados. Seria como se eu quisesse ter certeza de que ia morrer, e eu não queria - nem ter certeza, nem morrer.

Eu amo você.

Em um parágrafo à parte, ainda que faça parte do todo. Pra que tu não tenha dúvidas, pra que tu possa reler, se quiser, pra que tu saiba, pra que tenha certeza - porque ainda que seja tarde demais, preciso que tu tenha consciência de que é a verdade, de que essa sou eu me mostrando de dentro pra fora. Preciso que tu tenha consciência de que tu não é só mais um cara, mas sim o cara que ouviu de mim minha declaração mais sincera, mas sim o cara que conquistou tudo, que me teve nas mãos em todos os sentidos, que teve passe livre para todos os aspectos da minha vida, ainda que não parecesse. Tu é especial, sabe. Lembre-se disso.
Acaba aqui. Comigo aparando arestas, sem esperar mais absolutamente nada. Mas tudo bem, sabe? Resolvi tocar a vida, só precisava que tu soubesse, antes de eu começar. E precisava dizer que as coisas sem você não são as mesmas, mas tudo bem. E que ainda que eu prefira evitar o contato direto e direito, eu vou sempre estar contigo de alguma forma, caso tu precise. Como se fosse uma prece, talvez. E que tudo bem.


Sobre o livro: é teu. Presente que tive vontade de dar, como agradecimento e pedido de desculpas - por absolutamente tudo. Ele me fez lembrar você, sabe - exceto pela última página, que é como se ela falasse por mim. Considere como a despedida apropriada. Dessa vez sem "nunca mais", mas ainda assim sem estimativa de tempo para um retorno.

E que o Arpoador e o nono andar da UERJ continuem sendo nossos.




C.



terça-feira, 13 de outubro de 2009

wearing

"You’re in a car with a beautiful boy, and he won’t tell you that he loves you, but he loves you. And you feel like you’ve done something terrible, like robbed a liquor store, or swallowed pills, or shoveled yourself a grave in the dirt, and you’re tired. You’re in a car with a beautiful boy, and you’re trying not to tell him that you love him, and you’re trying to choke down the feeling, and you’re trembling, but he reaches over and he touches you, like a prayer for which no words exist, and you feel your heart taking root in your body, like you’ve discovered something you didn’t even have a name for".
— Richard Siken

domingo, 11 de outubro de 2009

jazz

Ao invés da marcha nupcial, o que se ouviu foi a música dos dois sendo tocada por ele no sax, e o que se viu foi ela entrando na igreja com um dos vestidos de noiva mais bonitos que já havia passado por ali, calçando um all star colorido por canetinhas. E de repente era impossível imaginar que não seriam felizes para sempre.

where the wind will blow

sete anos depois.

Casada, é? Quem é o cara que conseguiu te segurar?, ele ri. E ela explica que não é O cara, e ele ergue as sobrancelhas e entende sem que ela precise dizer mais nada. O que teus pais acharam disso?, ele quer saber. Acho que no fundo no fundo eles já esperavam, ela diz. Reagiram melhor do que imaginei, gostam dela, mas a verdade é que preferiam você. E ela abaixa os olhos e fica aquele silêncio de quem não sabe o que dizer e que quer dizer muito. E quem você preferia?, ele pergunta com um brilho nos olhos, e ela não sabe dizer se tem a ver com o que aconteceu entre eles ou se não passa de curiosidade genuína e ingênua. Se você me perguntasse naquela época, a resposta seria você, mas as coisas não são mais como antes. Acho que hoje não tem a ver com preferência... Eu quero ela e só. E ele acena a cabeça, e parece amargurado por um instante, mas ela pensa que pode ser apenas impressão - ela sempre tem muitas impressões. Você tá feliz?, ele pergunta sem olhar. E ela responde que nunca teve tanta certeza de que tudo ficaria sempre bem, e que pela primeira vez na vida estava no lugar certo. Fico feliz que você não tenha se contentado com a minha felicidade... E ela fica feliz também. Você tá diferente. Mais bonita do que aquela época... E ela diz que é porque não está mais quebrada. Ele fica sem graça, mas sorri. Não pede desculpas em momento algum, e ela fica contente com isso, pois ele não tem nada pelo que se desculpar. Ela pergunta como é que ele tá. Eu tô bem. Ainda tô com ela, e a gente vai se casar. E ela diz que vai querer ir ao casamento, cobra um convite e pergunta se ele não se importaria se... Mas é claro que ele não se importaria, pelo contrário!, gostaria muito que fosse acompanhada, porque não perderia a oportunidade de conhecer a pessoa que a fez se entregar - achava realmente admirável qualquer pessoa que provocasse esse efeito nela. Os dois ficam em silêncio por um bom tempo, até que ela sorri. E ela percebe, enquanto o observa calada, que eles dois poderiam estar na mesma situação caso tivessem dado certo, e que a vida era mesmo muito gentil consigo por ter lhe dado mais de uma oportunidade de ser tão feliz - como era.

Sim, ela sorri, e sim, ela está bem.


and so the lion fell in love with the lamb

Acabei de rever Twilight, e estava pensando que não é um filme tão ruim. Eu mudaria uma série de coisas, claro, mas eu gostei. Bastante, até. Acho que a Kirsten é uma boa Bella, e o Robert um bom Edward.

bordeaux

Essa noite fiz a Natália pintar o meu cabelo. Estou com uma testa cor de gelatina de groselha, uma calça manchada, dedos roxos, cadeira banca tingida, mas tudo muito suce. O cabelo tá só um pouco mais escuro, e se tu põe uma luz nele, fica meio roxo, meio vinho, uma cor aleatória aí que não me deixasse tão chocada ao me olhar no espelho depois, e que o presidente da empresa visse e não ficasse mais "OMG, QUE FOI QUE EU FIZ, OLHA QUEM TÁ CUIDANDO DOS MEUS CONTRATOS AGORA!" do que eu sinto, às vezes, que ele fica. E eu achei tri da Natália, no Maracanã vendo jogo do Flamengo e se empolgando com a Raça, ter dito "AH, EU PINTO \o/" com tanta vontade, mesmo sabendo que a cor tinha um nome de bordel meio antigo-novo-de-luxo-decadente: bordeaux profundo. É, é tenso, eu sei, e não consigo não associá-lo com algo sacana, hahaha. Mas agora o cabelo não é mais virgem, não vou voltar pro trabalho com a mesma cara, e 2009, ano ímpar, continua divertido e valendo a pena. Mas eu já sabia que valeria, desde o primeiro dia dele, yey!


sexta-feira, 9 de outubro de 2009

com aquarelas do autor

"Acho que te falta fé, menininha. Já pensou nisso?", ele pergunta, se levantando. E eu continuo lá sentada, brincando com umas pedrinhas e encarando meus tênis. Penso que talvez ele esteja certo, pra variar. "Sei que é tenso acreditar sem ver. Ou sem viver, no caso. Mas custa muito tentar?". Ele suspira, e eu quero dizer que não tem a ver com custos, mas sim com parecer muito idiota tentando. Só que eu não falo nada, porque sei que ele acha que idiotice é eu pensar assim. Daí eu fico em silêncio. "Eu te quero tão bem, menininha, tão bem...". Ele diz, suspirando de novo, depois de se abaixar e de olhar nos meus olhos. "Mas eu preciso que você acredite, querida, só isso. Senão...", e eu não deixo ele terminar. Não quero que ele termine a frase porque sei que depois dela ele vai embora. E eu não quero que ele vá embora. E eu quero dizer "mas como eu vou acreditar se você tá indo embora?". Mas eu não digo. Eu nunca digo nada. E penso que o quadro podia ser assim pra sempre, a gente preso num abraço de um desejo concedido. Mas começa agora: eu já o sinto escorregar pelas minhas mãos...

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

(...) like pictures and gather dust over the time

Estavam os dois em pé, ônibus lotado num engarrafamento de quinta-feira de chuva . Falavam sobre como o ônibus ao lado estava cheio, e sobre como Jonathan não conseguia ficar encarando ninguém por muito tempo. Camila disse que até conseguia, que fazia aquilo desde mais nova - ficar encarando estranhos e ver quem desviava primeiro -, então, é, conseguia sim, que tal competir? Competiram por um tempo antes de ficarem novamente entediados. Camila tinha um piercing no lábio, e os cadarços de seu all star tinham estrelas azuis. Jonathan era alto, tinha um voz grave, de homem, mas não parecia ter mais do que dezessete anos. Era só um garoto. Um garoto que admitiu não conseguir, "eu sempre desvio os olhos".

Camila falou sobre Rodrigo e sobre a mãe dele ter morrido, "e ele tava lá, foi à aula assim mesmo". Falou também sobre a prova fodida do César Áureo, e que ainda pegaria um terceiro ônibus pra ir pra casa. Jonathan a fez jurar que nunca mais pegariam o 711, o inferno do 711. Camila concordou. Jonathan ficou surpreso por ela não ter feito um escândalo que nem da última vez "depois de tantos anos de amizade você não vai confiar em mim? se eu tô dizendo que esse ôninus passa lá, então ele passa lá, porra! tu acha que eu vou te sacanear? a gente não se conhece de ontem!", e ele disse que ela era toda estressada. E ela disse que nem era. E eles ficaram em silêncio, ele rindo, até que ela concordou que talvez ela fosse mesmo, mas só um pouquinho. E depois ela encostou a cabeça no ombro dele e suspirou. E ficou assim por um tempo.





Ouvir a conversa deles me deixou com saudade.