domingo, 7 de fevereiro de 2010

os guardadores de segredos

Quando entrou no quarto de Clarisse pela primeira vez, encontrou-a deitada na cama olhando o teto. Ainda não havia ocorrido que talvez ela estivesse pensando em como escrever sua história ali, como vinha fazendo com o resto do cômodo. Demorou alguns segundos para olhar em volta, mas quando olhou, se encantou com as paredes tatuadas - sua caligrafia fina e geralmente bem-cuidada amontoada em pequenos fragmentos de histórias de sua vida, todas gravadas em torno de si. Achou bonito e poético - Clarisse sempre poderia dizer que sua vida estava ali, e ela realmente estava. Achou corajoso, também - se expor assim para qualquer um que atravessasse por aquela porta. Achou ainda inovador, e sentiu um pouco de inveja por isso, por ser uma das boas ideias que nunca teria primeiro. Mas nada superou o encanto. Nada nunca superou o encanto de ver, pela primeira vez, aquele quarto tatuado. E agora, dois anos depois da primeira vez, as duas estavam sobre aquela mesma cama, olhando aquele mesmo teto. O único espaço em branco. E tudo doía. O corpo todo, as mãos, os braços, as pernas, e até os pensamentos. O peito doía e tinha medo de respirar fundo. Doía sentir muito, doía sentir demais. Quando Clarisse começou a chorar, segurou seu pulso, entrelaçou seus dedos e os apertou com força, tão firme que pareciam inseparáveis e indissolúveis. Clarisse gritou e ela quis gritar junto. Empatia não é uma coisa bonita? Podia sentir as lágrimas dela molhando o lençol sobre a cama e sob elas, podia sentir as próprias lágrimas escorrendo pelo rosto e atingindo os fios, os tecidos, o colchão. As unhas de Clarisse formavam feridas em sua pele enquanto choravam juntas, enquanto caminhavam juntas, enquanto suas vidas faziam parte das mesmas paredes. Talvez fosse um daqueles momentos em que se descobre que não há mais para onde ir ou com quem ficar, a não ser juntas. Quis dizer que tudo ficaria bem e que ficaria ali pra sempre. Talvez tenha dito, talvez tenha dito em voz alta e não só em pensamento. Um aperto de mãos mais forte, as unhas cravadas na pele uma da outra, e pequenas gotas de sangue atingindo fios, tecidos, e colchão. Clarisse soluçava e não importava o porquê ou o motivo, importava só que doía e que doía nela por doer demais em Clarisse. Dois anos de histórias divididas em canetas esferográficas e canivetes, sobre tinta suvinil e papel de parede. Abraçou Clarisse por tudo isso. Beijou a curva de seu pescoço sem qualquer malícia, só porque estava perto e pra mostrar que estava perto, e disse que a amava porque essa era a verdade. Empatia é mesmo uma coisa muito bonita. O encanto pelo quarto tatuado nunca foi embora, e agora, como ele, também tinha marcas em suas mãos.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

dunhill

Você morreu, e no lugar de velas eu acendo cigarros para você. Um por dia, o mesmo horário, o mesmo lugar. É como se fosse o encontro de nós dois, eu te esperando pra variar, eu deitada na pedra pra variar, eu olhando o mar pra variar. Mas você nunca demorou tanto, nem me afligiu tanto, nem me deixou tanto. No fim da tarde você aparecia, me abraçava, suas mãos na minha cintura e seus lábios roçando minha testa. Era um amor tão bom e fácil. Nunca houve cigarros antes disso, porque nunca houve necessidade de consumir nada enquanto eu consumia você, enquanto eu era consumida por você. As besteiras que a gente acaba fazendo por amor. Se é que foi amor. Se é que é amor, e eu gosto de pensar que é. Que foi. Porque daí é bonito lembrar, e não parece tão tolo quando eu faço minhas tolices. Os dias passam e eu penso que talvez o romantismo seja a desculpa certa pra se cometer erros, como os quais eu cometo todos os dias. Eu não fui a primeira a perder alguém, e tenho certeza de que não serei a última. Minha história é só mais uma história no meio de tantas outras. Eu não tenho pena de mim, nem da minha vida, nem da minha perda. Eu só gosto fazer constatações das coisas que vão passando diante dos meus olhos e que eu não quero se percam no vazio - e elas não vão se perder no vazio porque eu vou consumi-las. Como faço com os cigarros, como fiz com você. E aí tudo acaba. Como a gente, como o resto, como o mundo. Boas histórias não são boas sem um bom final. Um cigarro por dia. Isso pode durar pra sempre, enquanto eu quiser viver. E eu quero.

sobre margens

Um longo corredor com cheiro de mofo e histórias de décadas atrás. Tinha um certo respeito pelo que era antigo. Admirou francamente as estruturas corroídas por traças e cupins, completamente tomada de infiltrações. A tinta das janelas descascando nascimentos, beijos roubados, pedidos de casamento, e quem sabe até carícias a frente do seu tempo. Tudo ali incrustado em gesso ou barro ou madeira fina do século XIV. Se acreditasse em vidas passadas, poderia acreditar ter vivido ali. Admirou de longe. Numa das janelas antigas, uma menina acenava para ela. Pelo que notou, acenava também para qualquer um que se aproximasse de si, um sorriso gentil no rosto, e pensou que talvez ela estivesse doente; e pensou que era triste pensar que talvez ela estivesse doente. Acenou de volta. A menina pareceu feliz. Se acreditasse em vidas passadas, poderia acreditar que aquela menina foi feliz numa outra vida, numa vida em que talvez não fosse doente ou que não fosse julgada como tal. Mas ela não acreditava em vidas passadas - mal acreditava nessa mesma. Tudo parecia um sonho, enquanto ela ia embora, deixando para trás uma menina que acenava, e uma vila do passado que resistia no centro de uma cidade de arranha-céus. Cenas que não fazem parte de livros de história.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

talvez eu goste do final

O boleto da faculdade é uma daquelas coisas que me deixam entre o chateada e o cansada. Sua chegada funciona mais ou menos como um lembrete de que tudo aquilo o que eu queria ter e fazer precisará ficar para depois, por não serem prioridade no momento. É frustrante.  Eu não quero parar de estudar! Eu só não queria ter de pagar para estudar. Não queria ter de escolher entre duas coisas que eu quero, e quero muito - uma que me realizará a longo prazo, e outras que me realizarão a curto prazo. 

Daí, entre um hold de choro e outro, pensei que melhor do que ficar reclamando não ter dinheiro ou o quanto é injusto ter que pagar pra receber educação, o que eu devo fazer é arranjar maneiras de conseguir a grana necessária pra tudo o que eu quero e/ou estudar a sério pra conseguir bolsa ou passar numa pública. Ninguém vai ficar com pena de mim e vai me bancar uma PUCRJ, ou vai me dar uma vaga nas federais, na estadual, se eu ficar fazendo beicinho. Quem tem de fazer isso por mim sou eu mesma. Se hoje o boleto da faculdade é uma daquelas coisas que me deixam entre o chateada e o cansada, então está na hora de eu pensar de modo diferente, deixar a chateação de lado, e recobrar o ânimo. Eu ainda gosto do que estudo. E vou gostar ainda mais quando não tiver de pagar - tanto - por ele. Vai dar tudo certo, de um jeito ou de outro.


sábado, 30 de janeiro de 2010

assessoria jurídica

Depois do almoço, minha chefe me chama:

- Caroool, preciso muito da sua ajuda. Comofas achar um vídeo aqui?
- Ué, Google it! o_o
- Tá, mas eu não tô achando, busca aqui!
- Tá, qual vídeo é?

E assim começa.

Meu chefe, que estava acompanhando a conversa até então, se infiltrou na papo antes que minha chefe respondesse e perguntou "Carol, você já ouviu falar de 2girls1cup ?" 

Minha expressão após a pergunta:


- Sei sim, por quê? 
- Porra, é verdade que esse filme é tão bizarro quanto dizem?
- Tu não quer ver isso, quer? 
- Eu não porra! Mas eu quero o link, falei pra *insira aqui o nome da minha chefe* mais ou menos o que me contaram, e ela tá louca, curiosa pra ver.
- Porra, mas é ou não é bizarro assim?
- CLARO QUE É!  Pra caraca! É nojento, sério, nojento, tem um jato e ahhhh! Não vejam, sério, não vejam, é nojento, são duas garotas (DUH), e elas se pegam, mas aí tem uma coisa NOJENTA, é bosta, um jato e AHHH, não vejam! -- notem a eloquência.

Reação d'O Chefe às minhas palavras: - MANDA O LINK, EU QUERO O LINK! 

Reação d'A Chefe e d'A Estagiária às minhas palavras: - Caroool, a gente quer ver, acha aqui, acha aqui! 

Minha reação à reação deles: - Ok, vocês pediram por isso 

Procurei.

E um parêntese aqui, mas quem sabe do que se trata esse vídeo, sabe também que é um dos PIORES vídeos da internet e AHHHHHH, PESADELOS só de lembrar. ._.

- Pronto, tá aqui. -- PLAY. 

A Chefe e A Estagiária: 


O Chefe: - MANDA O LINK PRA MIM, PORRA, EU QUERO O LINK! 

--- cena das gurias se pegando ---

A Chefe e A Estagiária: 

- AH, NÃO EU NÃO CONSIGO VER ISSO DE NOVO, NÃO VEJAM!  -- desce o scroll do mouse antes que A CENA apareça.

Em seguida, saí correndo pra minha mesa e deixei as outras duas lá vendo o vídeo, até que:

A Estagiária: - Hey, qual é a do sorvete?  
A Chefe: - Parece sorvete de... Chocolate?.... Doce de Leite? 

A Estagiária: - Hey , mas  , AHHH, QUE NOJO, TIRA ISSO DAÍ, QUE MERDA! 
A Chefe: - SOCORRO, JESUS, O QUE QUE É ISSO? 


O Chefe:  

A Chefe, rindo, chorando, se engasgando, vermelha: - MAS ENTÃO QUE PORRA DE SORVETE ERA AQUELE? -- vê o início.

Reação das duas:
- OLHA O QUE VOCÊ FEZ COMIGO! ESSE ESTÁGIO ARRUINOU A MINHA VIDA!
- NUNCA MAIS VOU DORMIR, VOU MORRER, VOU TOMAR REMÉDIO PRO RESTO DA VIDA!




O Chefe: AH, PORRA, MANDA LOGO ESSE LINK PRA MIM! 

- EU AVISEI!  - disse, enquanto enviava o link para o chefe e me certificava que não estava mandando-o, por engano, para o presidente da empresa. 

A Chefe: TU VAI VER? 

O Chefe: Mas É CLARO que não! 

O Estagiário entra na sala.

Eu: Hey, já ouviu falar de 2girls1cup?

O Estagiário: Não 

O Chefe: Senta aí na mesa da *insira o nome da chefe aqui* pra ver então 

O Estagiário vendo 2girls1cup:

>>>  >>>   >>>  >>>  >>> 


O Chefe: 



A Chefe: VOCÊ VAI TER QUE VER TAMBÉM, TODO MUNDO VIU, POR TUA CAUSA! 

O Chefe: Por minha causa o CACETE!  Eu só falei do vídeo, vocês viram por curiosidade. 

A Chefe: O que você vai fazer com o link, então?  

O Chefe: Vou mandar um e-mail pra minha lista de contatos dando a entender que eu vi, escrito "VEJAM ISSO, É MESMO SINISTRO" , e esperar pelas respostas .

Todos: GENIAL -Q, FILHO DA PUTA CRUEL O_O
O Chefe: Mas agora vamos todos trabalhar, galera 






15 minutos depois.




O Chefe ri sozinho.

A Chefe: Que foi?

O Chefe: Tava imaginando a reação da minha mãe vendo esse vídeo. 

Fim.




sábado, 23 de janeiro de 2010

conjecturas de uma sexta-feira apática

Esperança e realidade não são conceitos que andam de braços dados, dedos entrelaçados. Ser realista significa reconhecer que algo, em algum momento, pode dar errado; ter esperanças significa acreditar - e, por isso, apostar tudo - que não, não vai dar errado.


quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

a noite do beijo concedido

Houve uma época em que costumávamos sair da escola e ir até a Comandante Coimbra. Às vezes sentávamos no portão da Laís, às vezes no portão da Renata, às vezes ficávamos em algum ponto da calçada ou da rua, jogando cinco ou três cortes, mas aquela tarde-quase-noite era uma tarde-quase-noite especialmente diferente, talvez pela quantidade de pessoas sentadas na calçada, talvez porque estivessem todos respondendo a um caderno de perguntas ou conversando sobre ele. Era mais um daqueles dias em que a gente não sabia o significado das palavras "hora de ir pra casa", e já estava escurecendo. Lembro que, nessa ocasião, Pam estava empolgada porque o João estaria claramente dando em cima dela, ainda que Luly discordasse veemente disso, e afirmasse que na realidade era ela quem estava praticamente se jogando em cima do garoto - o que era tão verdade quanto revoltante, já que até então Pam namorava um amigo nosso.

Pam sempre se encontrava com o namorado por aquele horário, porque sua avó não permitia que ela andasse por saí a noite se não fosse com ele. No fim daquela tarde, o Rapha havia me mandando uma SMS avisando que não poderia ir, que sairia com a tia e o primo. Depois da notícia, acho que Luly e eu nos olhamos já prevendo o que poderia acontecer. Não tardou realmente para que Pam se oferecesse ainda mais ao João, causando cenas constrangedoras a todo mundo ali que conhecia o Rapha, e irritando a Luly - que não sabia se estava apaixonada pelo Rapha -, a Lu - apaixonada pelo Rapha -, e a mim - melhor amiga do Rapha.

Não lembro o motivo que fez o grupo se separar por alguns instantes, só lembro de estar na esquina com as outras meninas, enquanto a Pam estava um pouco mais abaixo na rua, conversando sozinha com o João. Lembro de ter descido e avisado que a Luly queria falar com ela. Lembro de ficado parada ao lado do João uns quatro ou cinco minutos, conversando sobre coisas aleatórias, antes de eu - "Posso fazer uma coisa?" - beijá-lo. Lembro de ter sido um puta beijo, e apesar de eu não lembrar da cara da Pam, por estar obviamente ocupada, Luly me contou que foi algo impagável quando ela parou de falar e apontou em minha direção, perguntando se era mesmo eu ali. Lembro de ter ouvido os gritinhos das meninas ao longe, e de ter segurado o riso. Lembro de ter me sentido ridiculamente bem.

Se me perguntassem o motivo de eu ter ficado com o João, eu não saberia responder na época, como não tenho certeza se sei responder agora. Os motivos pra eu ter continuado com ele foram outros, porque eu já o conhecia melhor, mas naquela noite fiquei só pra encher o saco da Pam, e porque eu já havia notado que ele estava mais interessado em mim do que nela, no fim das contas. Fiquei porque achava injusto ela querer ficar com o João quando já tinha o Rapha e ele era tão bom pra ela. Fiquei porque pensei que seria divertido se ela visse que só porque estava com o Rapha, não significava que tinha o resto do mundo a seus pés. Fiquei porque, já naquela época, eu sabia que ter o controle de uma situação era boa, e não me importava muito com as consequências do que quer que eu fizesse. Fiquei porque deu vontade e eu acreditava ter chances. Fiquei porque me convinha ficar. Fiquei, foi bom, e hoje tenho certeza de que não me arrependo disso.